Os cearenses do Cidadão Instigado, que lançaram um dos melhores albuns de 2009 ("Uhuuu"), se apresentam em Araçatuba no dia 8 de janeiro, sexta-feira. O show, com início às 20h30 na praça João Pessoa, é promovido pelo Sesc Birigüi. Obrigado Santo Sesc.
A banda é liderada por Fernando Catatau, uma das mentes mais criativas da música brasileira atual. Além de ser o frontman do grupo, é guitarrista de apoio de diversos artistas e ainda produtor musical. Produziu esse ano o ótimo "Certa manhã acordei de sonhos intranquilos", do pernambucano Otto. Ou seja, está envolvido em dois dos melhores albuns brasileiros de 2009. Acha pouco? vá ao show e confira.
Para quem não conhecia, sim, a voz dele é estranha. Assim como a do Bob Dylan e a do Chico Buarque, só para citar dois.
Um ano e 10 centímetros depois Mallu Magalhães está de volta. Após um ano de surgimento na música, a garota que, dormiu com algumas músicas no myspace e acordou escoltada por um contrato com empresa de telefonia móvel, reaparece com 17 anos completos e mais alta 10 centímetros. Mallu lança seu segundo álbum, novamente homônimo, e mostra que o crescimento não foi só físico, mas especialmente nas referências, mais variadas e bem canalizadas.
Com a maioria ainda em inglês, dessa vez são 6 composições em português, 4 a mais que no álbum anterior. O som continua ancorado no folk do primeiro trabalho, mas dessa vez com aventuras por vários estilos, como reggae em “Shine Yellow”, tropicália em “Versinho de Número Um” e “Compromisso”, um pouco de psicodelia em “Bee On The Grass” e baladas introspectivas como “Te Acho Tão Bonito” e “É Você Que Tem”.
Não há canções de apelo imediato como “J1” e “Tchubaruba”, que alavancaram o início da carreira da cantora, mas o conjunto do disco melhora e se torna mais consistente a cada audição. É fato que ainda há o que amadurecer no som da jovem artista, mas é inegável que o que ela já fez até os 17 anos é muito mais do que 90% do primeiro escalão do pop rock nacional vem produzindo nos últimos 10 anos, pelo menos.
Texto publicado dia 13 de dezembro de 2009 no jornal Folha da Região, de Araçatuba/SP
Imagine se você pudesse escolher cada integrante de uma provável banda dos sonhos. Bem, o mundo da música ainda não está tão interativo assim, mas, de fato, 2009 é o ano das superbandas. Algumas inusitadas, outras que nos trazem a impressão que os integrantes nasceram para tocar juntos. Algumas unindo músicos decadentes e esquecidos, outras colocando em sintonia artistas em pleno auge.
O melhor exemplo de superbandas no ano é a união entre o vocalista e guitarrista do cultuado Queens of the Stone Age, Josh Homme; o vocalista, guitarrista e baterista, Dave Grohl, atual Foo Fighters e ex-Nirvana; e John Paul Jones, baixista do lendário Led Zeppelin. É o Them Crooked Vultures, com Homme nos vocais e Grohl na bateria. O recém-lançado álbum do grupo é uma pérola do mais puro rock’n roll com experimentalismos fascinantes.
O disco, que certamente irá liderar a maior parte das listas de melhores do ano, não é exatamente um álbum fácil. É aconselhável que, antes de ouvi-lo, você conheça razoavelmente os trabalhos de cada integrante, especialmente de Josh Homme. Pois o Them Crooked Vultures cruza com maestria o experimentalismo do Queens of the Stone Age, com a veia pop do Foo Fighters e o rock clássico e vigoroso do Led Zeppelin. Desafio: tente ouvir o riff de guitarra da faixa Elephants e não ter vontade de sair pulando feito um louco.
Senhores de respeito
Outro grupo que merece destaque é o Chickenfoot. Banda que une os ex-Van Hallen, Mike Anthony e Sammy Hagar, respectivamente baixista e vocalista; Chad Smith, baterista do Red Hot Chili Peppers; e o guitarrista virtuoso Joe Satriani. O resultado é um Hard Rock a moda antiga, com destaque para a guitarra de Satriani, que era justamente o que poderia comprometer o trabalho com as habituais firulas do músico.
Tudo isso sem citar o The Dead Wheaters, que une Jack White, do White Stripes com Alison Mosshart do The Kills; e o inusitado Tinted Windows, que coloca lado a lado James Iha, do Smashing Pumpkins, e Taylor Hanson, dos Hansons, sim, você leu direito, Hansons, e o resultado é um power pop até interessante.
Como o assunto é superbandas, nada melhor que citar algo ligado a um super-herói: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades” foi o que Benjamin Parker, mais conhecido como Tio Ben, disse a Peter Parker, o eterno Homem-Aranha. Realmente, a cobrança com os supergrupos é redobrada, mas se os artistas souberem imprimir sua personalidade, e de suas respectivas bandas, na união, o resultado atrai fãs de todos os grupos envolvidos, e é claro, ainda com a possibilidade de angariar novos seguidores.
Texto publicado dia 29 de novembro de 2009 no jornal Folha da Região, de Araçatuba/SP
Com o mercado fonográfico em colapso e o compartilhamento de músicas online cada vez mais corriqueiro, os artistas precisam se reinventar, não mais apenas musicalmente, mas também nas formas de divulgação e distribuição de seus trabalhos. A banda independente paulistana Ecos Falsos acaba de lançar parte de seu novo álbum, intitulado “Quase”. Você deve estar se perguntando: “como assim ‘parte’ do álbum?”. Eu explico.
Serão 15 músicas novas, 10 foram liberadas este mês para download gratuito no site da banda (www.ecosfalsos.com.br) e em formato físico com extras multimídia. As outras faixas serão lançadas a partir desse mesmo mês em singles virtuais contendo cada um 3 faixas, duas já presentes no disco e uma não. Será lançado um single por mês até março de 2010, os nomes dos lançamentos serão “Q”, “U”, “A”, “S” e “E”. Os cinco singles também vão existir em formato físico, em mini-CDs customizados com uma faixa bônus, que serão vendidos junto com camisetas criadas por designers convidados. E como se não bastasse, em março, quando terminarem os singles, será lançado um livro com 15 histórias de ficção escritas pela banda, fichas técnicas, letras, fotos, notas de produção e o CD encartado com as 15 músicas e outras coisas que eles ainda vão inventar.
Confuso? Com certeza, mas muito divertido. Em tempo, as músicas liberadas felizmente não ficam em segundo plano. É rock divertido com letras inteligentes e bem sacadas. Da impagável “Spam do Amor” aos rocks vigorosos de “O Boi” e “Deadline”. O ideal poderia ser simplesmente lançar o CD e as pessoas comprarem, mas onde fica a diversão? Até em tempos de crise os roqueiros inventivos conseguem se divertir.
Texto publicado dia 15 de novembro de 2009 no jornal Folha da Região, de Araçatuba/SP
Em seu terceiro álbum de estúdio, a bahiana Pitty busca referências inusitadas, mas o resultado segue a cartilha dos trabalhos anteriores. Arrisca um tango em “Água Contida”, com participação de Hique Gomez, do grupo Tangos e Tragédias; dá novos ares a tradicional dona de casa em “Desconstruindo Amélia” e resvala na jovem guarda e em grupos vocais femininos na grudenta “Me Adora”, mostrando que a pose de vedete pode ser mais interessante que o estereótipo de roqueira.
Os destaques ficam por conta de “Fracasso”, com seu refrão marcante, e da balada “Só Agora”, uma canção de ninar que inevitavelmente remete ao fato da cantora ter perdido um bebê no terceiro mês de gestação, antes da gravação de Chiaroscuro. Ainda sobra espaço para canções como “Sombra”, um quase trip-hop com possível inspiração na banda inglesa Portishead; os rocks medianos “8 ou 80”, “Medo” e “Todos Estão Mudos”; e as insossas “Trapézio” e “Rato na Roda”.
Apesar do saldo irregular, é perceptível em Chiaroscuro que, lentamente a cantora vai se despindo da carapuça de rockstar, o que nesse caso pode ser extremamente proveitoso. Só falta ela entender que não há necessidade de citar estrategicamente medalhões da literatura, ou algo que o valha, para legitimar suas referências cult.
Vídeo retirado do DVD Chiaroscope, lançado logo após o álbum.
Magro, com ralos cabelos brancos e um eterno semblante de tristeza. Você apostaria que esse senhor, de 68 anos completos, lançaria em 2009 um álbum intitulado “Rock’N’Roll”?. Improvável, mas o tremendão Erasmo Carlos não se intimidou com o tempo e colocou suas armas para o combate em seu mais recente trabalho.
Rock’N’Roll é um álbum que faz jus ao título, obviamente no estilo Erasmo de fazer rock. Escoltado por parcerias com Nelson Motta, Chico Amaral (compositor de diversos hits do Skank) e Nando Reis, Erasmo desfila 12 faixas, produzidas por Liminha, cheias de referências à ídolos, ao estilo que dá nome ao álbum, e especialmente à si mesmo.
Na primeira música de trabalho, “Cover”, o tremendão brinca com o fato de nunca ter visto um cover de seu trabalho, com isso se proclama cover de si mesmo: "Sou um cover que imito até o meu autógrafo/ Diferente de tantos de norte a sul/ Covers de Roberto ou de Elvis/ Michael Jackson, Beatles e Raul". Nas letras do álbum, em geral, tudo é dito com nítida singeleza e honestidade, mas com uma fina ironia, ecos da ingenuidade da jovem guarda com respingos do cinismo do mundo moderno.
Músicas chamadas “A Guitarra É Uma Mulher” e “Um Beijo É Um Tiro” poderiam fatalmente ser taxadas de cafonas, até patéticas. Ouvindo de Erasmo, entretanto, tudo parece fazer sentido, tornando-se tocante inclusive. Assim como na canção-homenagem às mulheres: “Olhos De Mangá”, em que são enumeradas beldades, de Gisele Bündchen à Marge Simpson (!!) seria Erasmo Carlos um visionário, já que recentemente foi anunciado que a mamãe Simpson será capa da revista Playboy americana de novembro?
Enquanto Roberto Carlos faz o mesmo show para o mesmo público nos finais de ano na Rede Globo, o eterno “número dois” da Jovem Guarda se cerca de jovens. A banda de apoio conta com membros da banda independente carioca Filhos da Judith, sem contar que a apresentação do Pout-Pourri de “Cover” com sucessos da Jovem Guarda no VMB (Vídeo Music Brasil) da MTV foi o melhor show da noite.
Sereno como um ancião, mas com o vigor musical de um garoto, Erasmo Carlos não lançou um trabalho que vai abalar as estruturas da música brasileira, mas provou, com um registro de músicas honesto e competente, que sua vitalidade está intacta, e que existe vida no tão estagnado hall dos medalhões da música brasileira.
Texto publicado dia 25 de outubro de 2009 no jornal Folha da Região, de Araçatuba/SP