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quarta-feira, 9 de abril de 2014

Segundo dia do Lollapalooza Brasil 2014 - Sol, Andanças e Grandes Shows

Foto: Liliane Callegari

Lollapalooza 2014, o festival que chegou por aqui dois anos atrás esse ano teve nova casa, deixou o Jóquei para ser realizado no Autódromo de Interlagos, e voltou a ter apenas dois dias, como no primeiro ano, não mais três, como em 2013. Se em 2012 os headlines eram: Foo Fighters e Arctic Monkeys, em 2013: Killers, Black Keys e Pearl Jam, neste ano com Muse e Arcade Fire ficou com uma cara mais alternativa, sem um nome de apelo popular maior (no Lolla Chile e Argentina teve Red Hot Chili Peppers no lugar do Muse).

Sobre o acesso ao autódromo, vi muitas pessoas reclamarem da distância, mas sinceramente não vi grandes problemas. Fui de metrô/trem bem cedo, antes do meio dia, e achei tranquilo. Bom deixar claro que só fui no domingo, dia que, segundo ouvi de amigos, foi menos numeroso e mais transitável que no sábado.

Sobre o lugar, gostei. Sim, os palcos eram bem distantes um do outro, mas ao menos não houve possibilidade do som de um invadir o do outro (como chegou a acontecer no Jóquei). E embora a caminhada tenha sido longa, não chegou a atrapalhar meu planejamento do que queria ver, e olha que não sou nenhum fenômeno de preparo físico, longe disso, na verdade. 

Achei interessante a disposição dos palcos e outros espaços, só acho que poderia ser estudado colocar mais opções de passagem de um lugar pro outro, não havia nenhuma opção a mais para transitar, todo mundo ia pelo mesmo caminho, bem amplo em alguns trechos, mas não o suficiente em outros.

Outro problema foi que havia pouquíssimas lixeiras no autódromo, o lixo ia se acumulando por todo lado, a ponto das pessoas terem que desviar de pequenas montanhas que iam se formando, claro que isso também tem a ver com a educação e o hábito das pessoas jogarem o lixo no lugar certo, mas não foi uma nem duas vezes que cheguei a andar por muito tempo com copo na mão sem encontrar uma lixeira sequer.

Sobre a alimentação, pela primeira vez comi bem em um festival. O Chef's Stage foi uma bola dentro incrível da organização, vários estandes de restaurantes fazendo "comida de verdade" a preços não exatamente baratos, mas também não muito fora da realidade de festivais.

Do mais, achei a edição de 2014 do Lollapalooza muito boa em linhas gerais. Não fui ano passado, mas achei a desse ano melhor que a de 2012 em vários aspectos. Feitas essas considerações, vamos ao que importa, os shows.                                         


Apanhador Só 
Palco Interlagos - 12h15


Foto: Liliane Callegari

Meio dia e quinze, debaixo de um sol impiedoso, os gaúchos do Apanhador Só deram as caras no palco Interlagos. Um número considerável de pessoas já se aglomerava para ver. O começo foi com "Mordido", som que abre o segundo e mais recente álbum da banda, "Antes Que Tu Conte Outra". Depois da primeira metade da música, torta e estranha, veio a parte mais pesada e com ela a certeza de que seria um grande show. 

As músicas do primeiro disco, tão diferentes das do segundo, foram tão bem distribuídas e moldadas no setlist que tudo fez sentido. Além dos quatro integrantes originais, mais dois músicos integraram a banda no show. Tirando Alexandre Kumpinski, que ficou "apenas" nos vocais, violão e guitarra, os outros cinco se revezavam entre uma série de instrumentos, dos convencionais aos mais curiosos apetrechos percussivos. 

Foi bonito ver a galera correspondendo e a alegria estampada na cara de cada um dos integrantes da banda, como se não acreditassem em tudo aquilo. A única ressalva foi a escolha de "Cartão Postal" para encerrar o show. Mesmo bonito, o final acabou ficando anticlímax comparado a performance intensa do restante da apresentação. O que de forma alguma ofuscou o grande show dos gaúchos, que foi muito aplaudido e festejado por um publico ciente de que viu uma bela apresentação de uma das melhores bandas brasileiras da atualidade. 

Setlist

01 - Mordido
02 - Não Se Precipite
03 - Vitta, Ian, Cassales
04 - Liquido Preto
05 - Torcicolo
06 - Bem-Me-Leve
07 - Prédio
08 - Nescafe  
09 - Na Ponta Dos Pes 
10 - Despirocar
11 - Cartão Postal




Raimundos
Palco Skol - 13h30


Foto: Mila Maluhy/T4F Divulgação


Com material do disco lançado esse ano pra mostrar, a banda já mandou de cara duas do "Cantigas de Roda" (2014). "Gato da Rosinha", rápida, pesada, mas com o som embolado e Digão sofrendo pra cantar na velocidade certa, e "Baculejo", essa mais cadenciada. As duas foram até bem recebidas pelo público, mas foi com "Mulher de Fases" que a coisa pegou fogo. Depois disso vieram "O Pão Da Minha Prima", "Palhas Do Coqueiro" e dá-lhe memória afetiva das pessoas que já fizeram muito bate-cabeça ouvindo esses sons.

Entre as músicas, Digão disparava todos os clichês da galáxia pra "levantar a galera", coisas do tipo: "isso aqui é rock", "esse é o rock do Brasil" e muito blablabla. Ainda assim conseguiu "organizar" uma bela roda de pogo para lembrar os velhos tempos. Mas mesmo com o caminhão de hits, a banda brasiliense ainda parecia apenas uma sombra do que já foi, ou como já disseram aos montes, um cover de si mesmos. 

Isso, somado ao fato de que logo começaria o show do Johnny Marr em outro palco, me fizeram abandonar o Raimundos no meio, estou certo de que fiz bem.

Setlist 

01 - Gato Da Rosinha
02 - Baculejo
03 - Mulher de Fases
04 - O Pão Da Minha Prima
05 - Palhas Do Coqueiro
06 - BOP
07 - Deixa Eu Falar
08 - Puteiro Em João Pessoa
09 - I Saw You Saying
10 - Me Lambe
11 - Esporrei Na Manivela
12 - Eu Quero Ver O Oco


Johnny Marr
Palco Onix - 14h20

Foto: Liliane Callegari

Nem estava na minha programação, acho que não tinha me ligado que ERA O JOHNNY MARR, guitarrista do Smiths e que iria rolar algumas da sua antiga banda. Quando Marr subiu no palco, acompanhado de um baixista, um guitarrista e um baterista, o sol seguia firme, mas a banda se segurava na elegância, com camisas de mangas compridas e botões abotoados até o fim. O ex-Smiths era só simpatia, sorrisos pra todos os lados.

As músicas do bom disco solo mais recente funcionaram bem ao vivo, mas quando surgiam os hits do Smiths a coisa toda alcançava um nível de emoção e memória afetiva que era impossível não se emocionar. Primeiro veio "Stop Me If You Think You've Heard This One Before", depois "Bigmouth Strikes Again", e por fim, o momento histórico, "How Soon Is Now?", com participação do Andy Rourke, baixista original dos Smiths. Pra muita gente ali era difícil acreditar que estava diante de dois quartos da banda inglesa, talvez o mais próximo possível de se ver a formação original hoje. 

E pra terminar, "There Is a Light That Never Goes Out". A essa altura a palavra emoção já até tinha ficado banalizada, mas ainda perfeitamente cabível. O sol castigava, mas todos pulavam ali como se não se importassem, letra inteira cantada em coro e ainda mais forte no refrão. Momento pra ficar na memória.       

Setlist

01 - The Right Thing Right
02 - Stop Me If You Think You've Heard This One Before 
03 - Upstarts
04 - Sun & Moon
05 - New Town Velocity
06 - Generate! Generate!
07 - Bigmouth Strikes Again
08 - Word Starts Attack
09 - Getting Away With It
10 - I Fought The Law
11 - How Soon Is Now?
12 - There Is a Light That Never Goes Out


Vampire Weekend
Palco Onix - 16h30


Foto: Marcelo Rossi/T4F Divulgação

Quando o Vampire Weekend começou a tocar, o público já era bem mais numeroso que no show anterior, a topografia do autódromo permitia uma vista bonita da galera se aglomerando e procurando um canto para ver o show. Começou bem com "Diane Young", "White Sky" e "Cape Cod Kwassa Kwassa", animado, banda afiada... mas não consigo achar muita graça no som deles, na quarta música tudo já me parecia meio bobinho e enfadonho.

Até que veio "Cousins", uma das poucas que gosto mesmo deles, e com ela a justificativa do famigerado termo "micareta Indie". Como disse, nunca fui grande fã do Vampire Weekend, mas o show em geral é divertido, se bem que, no final das contas me diverti mais com as dancinhas engraçadas e desconjuntadas dos amigos (valeu Bruno Capelas e Otaner) e com a roda de pogo do que com o som em si. Aliás, além das coreografias, outro ponto alto do show foi o Ezra Koenig mandando um macarrônico "Tamo Junto". Acabei saindo antes de terminar pra chegar cedo no Pixies. 

Setlist

01 - Diane Young
02 - White Sky 
03 - Cape Cod Kwassa Kwassa
04 - Unbelievers
05 - Holiday
06 - Step
07 - Everlasting Arms
08 - Cousins
09 - California English
10 - A-Punk
11 - Ya Hey
12 - Campus
13 - Oxford Comma
14 - Giving Up The Gun
15 - Hannah Hunt
16 - Walcott


Pixies
Palco Skol - 17h35


Foto: Mila Maluhy/T4F Divulgação

Ja cheguei sabendo que a banda não era, digamos, das mais empolgadas no palco. Mas cheguei mais ciente ainda de que o valor afetivo ia predominar no show. Costumo dizer que o Pixies é uma das bandas da minha adolescência, daquelas que moldam seu gosto, criam parâmetros e ganham valor sentimental na sua vida. As que falam alto comigo são Nirvana, Pixies, The Cure, Smashing Pumpkins e Radiohead. Dessas, como o Nirvana não tem mais jeito, só faltava o Pixies pra eu ver ao vivo.

O inicio, com "Bone Machine" já foi de arrepiar, em seguida, "Cactus", "Something Against You" e "Broken Face". Frank Black, no palco, parece sempre estar em algum tipo de estado letárgico, mesmo quando berra insanamente (ah, e como berra...); Joey Santiago parece sempre entediado e visivelmente incomodado quando alguma luz mais forte passava pelo seu rosto; David Lovering é o boa praça da banda, sorridente e parecendo feliz em estar ali, naquele momento. Paz Lenchantin não tem aquela simpatia contagiante da Kim Deal, mas possivelmente sabe disso e compensa na boa vontade, tem gestos discretos, mas da conta do recado, no baixo e na voz.  

Do disco recém-lançado, "Indie Cindy, vieram cinco músicas, muitas vezes quebrando a sequência do repertório e jogando um balde água fria nos fãs sedentos pelos clássicos. Os destaques positivos das novas foram a potente e grudenta "Blue Eyed Hexe" e "Greens And Blues",  que fez bonito no meio de vários hits enfileirados.

A sequência final foi matadora: "Where Is My Mind", "Here Comes Your Man", "La La Love You" (com direito a sorrisos de Frank Black, coisa rara), "The Holiday Song", a já citada "Greens And Blues", "Hey", "U-Mass" e "Planet Of Sound". Vale destacar que, quando fiz a "Lista de músicas que você precisa ouvir antes de ver o show do Pixies", para o blog da Michele, citei que a música mais conhecida pelo público geral é "Here Comes Your Man", que seria o momento fofura do show e que seria impossível não abrir o sorriso nesse momento, o que eu não esperava era ver uma pessoa com necessidades especiais (na área para PNE) se debruçar na grade e gritar desenfreadamente durante TODA a música. Não, ele não gritava apenas a letra, urrava a todo momento, como se a felicidade não estivesse cabendo nele naquele momento. Bonito de se ver, impossível duvidar do poder que uma música pode ter.

Fim do show. Meu compromisso com minha adolescência estava cumprido. Faltou "Tame", "Wave Of Multilation", "Velouria", "Head On" e principalmente "Debaser", mas ainda assim valeu muito. Pixies sendo Pixies, como esperado, mas aprovado.
    
Setlist

01 - Bone Machine
02 - Cactus
03 - Something Against You
04 - Broken Face
05 - Brick Is Red
06 - Gouge Away
07 - Bagboy
08 - Monkey Gone To Heaven
09 - Blue Eyed Hexe
10 - I've Been Tired
11 - Magdalena
12 - Caribou
13 - Nimrod's Son
14 - Indie Cindy
15 - Ed Is Dead
16 - Where Is My Mind?
17 - Here Comes Your Man
18 - La La Love You
19 - The Holiday Song
20 - Greens And Blues
21 - Hey
22 - U-Mass
23 - Planet Of Sound


Jake Bugg
Palco Interlagos - 19h


Foto: Camila Cara/I Hate Flash

Ver um pedaço ou o show inteiro do Jake Bugg era incerto pra mim, só saberia na hora, ia depender da movimentação, da minha disposição e do meu estado físico no momento. Porém, na hora "H" tudo correu bem e lá estava eu logo no início para ver o garoto prodígio e marrento. Gosto dos dois discos dele, especialmente do segundo, a expectativa pro show era boa. 

O início foi com a chatinha "Kentucky". Menininhas histéricas se dividiam entre: "Liiiiindo" e "Nossa, que voz de taquara rachada!". A banda ainda tinha um baixista e um baterista que pareciam respirar com ajuda de aparelhos. Tive sérias dúvidas se o baixista não era um robô ou algo assim. Bugg seguia aquela linha blasé de quem, teoricamente, não está nem aí pra nada.

"There's A Beast And We All Feed It", "Trouble Town" e o hit "Seen It All" formariam a sequência ideal para levantar o show e ficar com o jogo ganhou logo no início, mas tudo parecia no piloto automático, sem expressão e leeeeento, muito lento. Na bela balada "Broken", Bugg ficou sozinho no palco com um violão, e a coisa toda parecia precisar de um pescotapa para pegar no tranco. Devagar, sem vida e me dando certeza que eu devia sair dali logo.

A música seguinte foi "Simple Pleasures", e com ela veio o pensamento de "agora vai". Doce ilusão... no momento em que a música fica mais intensa no disco, ao vivo foi xoxo demais. O suficiente pra me fazer abandonar o show. Soube que no setlist ainda teve mais um balada lentona ("A Song About Love") e uma boa sequência final, incluindo "My My, Hey Hey", do Neil Young, mas vai saber se tudo seguiu ou não a leseira da primeira parte do show...

No final ficou a dúvida se não era um show adequado para grandes festivais (alguém aí viu o cara no Cine Jóia um dia antes?), se o rapaz ainda tem muito o que amadurecer no palco ou as duas coisas. 



Setlist

01 - Kentucky
02 - There's A Beast And We All Feed It 
03 - Trouble Town
04 - Seen It All
05 - Me And You
06 - Two Fingers
07 - Messed Up Kids
08 - Broken
09 - Simple Pleasures
10 - Green Man
11 - A Song About Love
12 - Tasted It
13 - Slumville Sunrise
14 - What Doesn't Kill You
15 - My My, Hey Hey (Out Of The Blue) (Neil Young Cover)
16 - Lightning Bolt


Arcade Fire   
Palco Skol - 20h30


Foto: Liliane Callegari

De 2005, quando o Arcade Fire veio para o Brasil pela primeira vez, para 2014, muita coisa mudou. Se naquele longínquo Tim Festival de 9 anos atrás os canadenses, então desconhecidos, tinham apenas um disco e eram vistos como um nome promissor, no Lollapalooza 2014 vieram como headline, quatro discos fantásticos no currículo e uma produção invejável.

12 pessoas no palco, DOZE. Além dos seis realmente da banda, dois percussionistas, dois responsáveis pelos metais, e dois multi-instrumentistas que passavam por violino, teclado e uma penca de instrumentos. Aliás, a troca de instrumentos entre os doze integrantes era constante, mas tudo feito com tanta sincronia que as músicas mal tinham pausa de uma pra outra.

A primeira do repertório foi "Reflektor", já um dos grandes momentos do show. Logicamente o impacto visual da entrada da numerosa banda e as luzes frenéticas do palco contaram muito, mas a música em si e todas suas nuances foram o ponto alto. O problema de começar de forma tão arrebatadora é conseguir manter o clima no restante do show, mas o Arcade Fire conseguiu.

A segunda música foi "Flashbulb Eyes", uma das mais dispensáveis do disco mais recente da banda, mas ao vivo e colada a "Reflektor" fez todo sentido. Em seguida duas do "Funeral", primeiro disco da banda, "Neighborhood #3 (Power Out)" e "Rebellion (Lies)", tudo mantendo a pressão do início.

"Essa música é sobre saudade", disse Win Butler, no piano, antes de começar "The Suburbs", uma das canções mais bonitas que a banda já fez e que ao vivo ficou ainda mais forte e tocante. Como no disco, em seguida veio "Ready To Start", logo depois "Neighborhood #1 (Tunnels)" e "No Cars Go", infelizmente a única do ótimo "Neon Bible", segundo disco dos canadenses.



Foto: Egler Medeiros/I Hate Flash

"Neighborhood #2 (Laika)" é uma das favoritas dos brasileiros, mas não vinha sido tocada na turnê, até que houve uma movimentação nas redes sociais intitulada "Vai Ter Laika Sim". A coisa toda tomou um proporção tão grande que a música acabou entrando no setlist do show deles no Rio de Janeiro e no do Lollapalooza, nem preciso dizer que a comoção foi enorme.

Talvez "It's Never Over (Oh Orpheus)" tenha sido o momento mais morno da apresentação, longe de ser ruim, mas um pouco abaixo do que já havia sido feito no palco, mesmo com toda a fofura de Reginé Chassagne cantando "O Morro Não Tem Vez" em seguida. Mas daí pra frente não tinha mais erro, "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)", "Normal Person" com um peso absurdo no refrão e "Here Comes The Night Time", introduzida por "Nine Out Of Ten" do Caetano Veloso, e terminada com uma chuva de papel picado bonita de se ver (não, ninguém está falando em micareta indie).  


Pra encerrar, a música que abriu os shows de 2005, "Wake Up". O coro mais legal da música nos últimos 11 anos  foi cantado com tanta força que não havia possibilidade de ter mais nada nessa edição do Lollapalooza, qualquer coisa que aparecesse depois soaria deslocada. Foi aquele momento de catarse em que as pessoas tinham vontade de se abraçar e de pular descoordenadamente. Quando a banda parou e deixou apenas o público cantar, foi ideal para inconscientemente avaliar tudo que passou no dia, o cansaço, as dores nas pernas, as queimaduras do sol, e ter certeza que valeu muito a pena, afinal tudo isso vai passar, mas a lembrança ainda deve perdurar por muitos e muitos anos.   



Setlists


01 - Reflektor
02 - Flashbulb Eyes
03 - Neighborhood #3 (Power Out)
04 - Rebellion (Lies)
05 - The Suburbs
06 - The Suburbs (Continued)
07 - Ready To Start
08 - Neighborhood #1 (Tunnels)
09 - No Cars Go
10 - Haiti
11 - Neighborhood #2 (Laika)
12 - Afterlife (com My Body Is A Cage acapela)
13 - It's Never Over (Oh Orpheus) (com O Morro Não Tem Vez)
14 - Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)
15 - Normal Person
16 - Here Comes The Night Time (com Nine Out Of Ten)
17 - Wake Up


TOP 3 "SHOWS

1) Arcade Fire
2) Johnny Marr
3) Pixies

TOP 3 "GRANDES MOMENTOS"

1) Johnny Marr e Andy Rourke juntos tocando "How Soon Is Now?"
2) Arcade Fire encerrando o show com "Wake Up"
3) Johnny Marr encerrando o show com "There Is A Light That Never Goes Out"

TOP 3 "FRASES"

1) "Vai ter copa sim, vai ter muita copa, vai ter copa pra caralho!", Bruno Capelas quando terminou o show do Arcade Fire.
2) "Não pode entrar com garrafa, só com copo, a 'Lolla' que me falou", ambulante vendendo água no caminho do autódromo.  
3) "Tamo junto", Ezra Koenig, sem ler, durante o show do Vampire Weekend.

TOP 3 "LINKS"

1) Diversos vídeos do festival 
2) Fotos incríveis da Lili 
3) O melhor amigos dos festivais

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Animal Nacional - Vespas Mandarinas




Se procurarmos uma referência geral do rock feito no Brasil, podemos puxar na memória e colocar Os Mutantes no topo da lista, ou mesmo destacar a inocência dos roqueiros da Jovem Guarda, mas a impressão que fica é que o termo “Rock Nacional” é inevitavelmente ligado às bandas dos anos 80: Titãs, Ira!, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e tantas outras.

Mesmo três décadas depois, essa cena ainda é uma referência forte, menos musicalmente e mais como um símbolo. Ainda existe um carinho e uma consideração quando se fala desse período. O tempo passa e muitos elementos da cultura em geral vão se revelando estritamente frutos de um período específico, e com o “Rock 80 Brasil” não é diferente.

Pode ser que ainda não tenha passado tempo suficiente e que daqui a 10 anos essa reverência seja direcionada a bandas da década seguinte, como Raimundos, Planet Hemp ou… Charlie Brown (!!). Não temos como saber, ainda.

Cortando para 2013, ou mesmo a partir de 2010, o rock brasileiro, ao menos pensando em mainstream, inexiste. E mesmo no underground, as bandas independentes legitimamente roqueiras não são muitas que conseguem se destacar – levando em conta que critérios para classificar uma banda como “rock” são cada vez mais variáveis e muitas vezes desnecessários.




A banda paulistana Vespas Mandarinas vai além do simbolismo e traz também um pouco do som e da temática oitentista em seu álbum de estreia, “Animal Nacional”. O grupo, formado por Chuck Hipolitho (Forgotten Boys), Thadeu Meneghini (Banzé), André Dea e Flávio Guarnieri (Sugar Kane), resgata em seu debute o imaginário de várias bandas do período.

O disco começa bem com a urbana “Cobra de Vidro” e também “Não Sei O Que Fazer Comigo”, versão de “Ya No Sé Qué Hacer Conmigo”, da ótima banda Uruguaia El Cuarteto De Nos, com vários versos adaptados. Em seguida vem “Santa Sampa”, escrita em conjunto com Bernardo Vilhena. Como o título da música sugere, o tema é a vida em São Paulo. O disco, como um todo, tem várias referências a capital paulista.

“Animal Nacional” tem uma ligação bastante íntima com o último trabalho do Banzé, o subestimado “Antes da Queda” (2008), onde aparecem originalmente as músicas “Cobra de Vidro” e “Um Homem Sem Qualidades”, as duas com versões ligeiramente melhores do que as que entraram no álbum do Vespas. Mas a semelhança dos dois discos vai além, a aspereza das guitarras e os temas urbanos das letras aproximam os dois trabalhos.




Os vocais das músicas são divididos entre Chuck e Thadeu (seis músicas para cada um). Em “O Amor E O Acaso”, o ex-Forgotten Boys canta uma letra de amor quase simplória: “Mas como é que ele vai te achar / Se você se esconde / Vai ver você já encontrou o amor / Só você não sabe”. Já em “O Vício E O Verso” (sim, os títulos das músicas tem um “quê” de Engenheiros do Hawaii) Thadeu canta em meio a guitarras cheias de efeitos que remetem, mais uma vez, aos anos 80. As frases prontas “O vício e o verso / Navegar é preciso /Meu rumo é o inverso / E viver é um preciso, meu amor” são facilmente relevadas pelo vigor da música, principalmente no refrão, onde o vocal intenso beira o desafinado.

“A Prova”, parceria com Arnaldo Antunes, é leve e simpática – quando começa a soar muito repetitiva, felizmente termina. “Só Poesia” também se repete bastante, mas dessa vez com mais peso e uma sutil lembrança de Queens Of The Stone Age. Os versos quase lineares culminam em um bom refrão. “O Inimigo” é suja e fala de uma certa maldade decadente. “Rir No Final” mantém o peso, agora com uma letra rancorosa e ressentida.

“Distraídos Venceremos” é quase uma balada com jeitão de hino nerd, mas não é. A canção derradeira é “O Herói Devolvido”, uma faixa desajeitada e divertida que traz, novamente, um amontoado de frases feitas: “Quanto mais eu rezo / Mais assombração me aparece / Na vida a gente não tem o que quer / A gente tem o que merece”.

“Animal Nacional” não sinaliza nenhuma “nova” tendência, e nem tem intenção de, mas faz um resgate interessante do rock brasileiro anos 80, felizmente não embriagado pelo saudosismo. É um disco com alguns bons momentos e outros nem tanto, e talvez o grande charme do álbum seja essa irregularidade, que pode ser associada à forma como ouvimos as bandas oitentistas hoje, ou como Chuck canta em “O Herói Devolvido”: “Tá todo mundo tão preocupado em ser perfeito / mas no final o que faz falta é o defeito”.


domingo, 28 de abril de 2013

Ana Cañas "quase ao vivo" em Birigui


Tudo começou algumas semanas antes do show. Coincidentemente, assim que foi anunciado no SESI-Birigui, o Marcelo Costa publicou no Scream & Yell algumas considerações sobre Volta, o disco de 2012 da Ana Cañas, que eu lamentavelmente tinha deixado passar. Fui, então, ouvir o trabalho, achei incrível, o equilíbrio exato entre a elegância do primeiro disco e a veia pop do segundo.

Até que chegou o dia do show. Pra quem não sabe, moro em Araçatuba, mais ou menos 10km distante de Birigui. O esquema de shows e peças no SESI é o seguinte: os ingressos começam a ser distribuídos uma hora antes do início da apresentação, ou seja, show marcado para 20h, retirada das entradas a partir das 19h.

Por conta da correria consegui chegar às 19h20 e não havia mais lugares entre os 250 que o teatro comporta (soube que tinha gente por lá desde às 17h30). Tive que me contentar com uma estrutura que o SESI montou ao lado do teatro, com um telão mostrando o show. A princípio foi uma broxada colossal, pra quem esperava ver a cantora com todo o intimismo que um show em teatro sugere, tive que me contentar com uma espécie de Live Stream do You Tube em tamanho maior.

Por conta de todo esse desencontro tive até dúvidas se escreveria algo sobre o show, com medo de soar como aquelas resenhas cheias de propriedade escritas por quem prestigiou um evento diretamente do sofá da sala. Mas mesmo com todas as adversidades acredito que a experiência vale ser destacada.


Aqui cabe um elogio a pessoa que operava a câmera destinada a transmitir as imagens para o telão. Mesmo com um único equipamento, o show foi transmitido com a sensibilidade de quem sabia o que se passava no palco. Movimentos espertos, atenção aos detalhes e closes generosos na bela cantora.

No palco, Ana Cañas já surgiu arrancando suspiros. Se o corpo estava coberto por um longo vestido preto que ia até os pés descalços, uma fenda destacava a pele branca, assim como o forte batom vermelho.

A primeira música, “Urubu Rei”, teve seu primeiro verso cantado à capela, para logo depois entrar uma guitarra ruidosa, tocada pela própria Ana Cañas. A voz saía límpida das caixas de som, a dinâmica ficava ainda mais evidente com o trabalho do competente power trio baixo-guitarra-bateria que acompanha a cantora.

O repertório foi composto quase que completamente por músicas do disco de 2012. Fugindo dessa regra, a terceira do show foi “Pra Você Guardei O Amor”, que alcançou grande sucesso com Nando Reis e participação da própria Ana Cañas. Na apresentação ela apareceu em uma versão com acento folk, contida nos versos e explosiva nos trechos instrumentais. Foi a primeira cantada em coro na noite.



Quando “Todas As Cores” e “Difícil” pareciam ter levado o show definitivamente para uma agradável leveza pop, a cantora foi para o canto do palco se posicionou quase que de costas para o público e cantou “No Quiero Tus Besos” e “Stormy Weather”, clássico do jazz cantado por Billie Holiday e vários outros artistas. Ali, depois da intensidade dessas duas músicas, ficou claro que no palco havia de fato uma entrega, não apenas mais uma cantora de MPB mais preocupada em ser cult-diva-descolada ou qualquer outro rótulo. Ressaltando, justificando e reforçando que tudo isso podia ser (e foi) notado por um telão a cerca de 10 metros de onde a cantora estava de fato.

Os momentos mais intensos no palco eram diametralmente opostos, além da parte mais intimista e dramática citada acima havia os momentos mais pesados, como no blues rock “Diabo” com um final caótico e dissonante e na versão surpreendente de “Rock’n Roll” do Led Zepellin (as duas também do Volta). Como citei essa semana no twitter, poucos artistas têm culhões para se arriscar em versões corajosas (e felizmente boas) de Led Zepellin e Bob Dylan (no primeiro disco ela regravou “Rainy Day Women #12 & 35”).

No repertório, além dos covers gravados em discos (“Stormy Wheater”, “Rock’n Roll”), ainda teve “Codinome Beija-Flor” e “Blues da Piedade” (Cazuza, essa última com direito a uma provocação ao deputado Marco Feliciano), “Metamorfose Ambulante” (Raul Seixas), “Escândalo” (Caetano Veloso, mas cantada por Ângela Ro Rô), “Mulher O Suficiente” (Alzira Espíndola, cantada por Tetê Espíndola), “Retrato Em Preto E Branco” (Chico Buarque e Tom Jobim) e “Com A Boca No Mundo” (Rita Lee). Todas muito bem executadas, mas fico pensando se valeu a pena  tocar 7 covers e deixar de fora do repertório ótimas músicas dos dois primeiros discos.

A única música além das do último disco e dos covers foi “Esconderijo”, do disco Hein?. Por muitos era a música mais esperada, foi tocada no bis, em clima de roda de violão, com coro da plateia, bonito. “Com A Boca No Mundo” fechou o show em alta, com peso e com direito a citação de “I Can´t Get No” no final.



Com o repertório definitivamente terminado, o que se via no palco era a figura esguia de Ana Cañas descabelada, com a maquiagem borrada, aparentemente exausta e feliz. A entrega, citada mais acima, era evidente. No Brasil, onde temos um histórico de cantoras como Elis Regina, Gal Costa e tempos depois Cássia Eller, que se acabavam no palco, expunham as entranhas em apresentações viscerais, ver a jovem e linda Ana Cañas é um grande alento. Ficou a certeza de que não foi apenas “uma apresentação em uma cidadezinha do interior”, e sim um SHOW, com letras maiúsculas e emoção a flor da pele, como todo show deve ou deveria ser, mesmo visto por uma tela a 10 metros do palco.

Fotos internas: Ana Araripe
Foto externa: Renata Santos


Setlist (se não me falha a memória)

01 - Urubu Rei
02 - Será Que Você Me Ama
03 - Pra Você Guardei O Amor
04 - Codinome Beija-Flor
05 - Todas As Cores
06 - Difícil
07 - No Quiero Tus Besos
08 - Stormy Weather
09 - L'Amour
10 - Rock'n Roll
11 - Escândalo
12 - Volta
13 - Diabo 
14 - Metamorfose Ambulante
15 - Blues Da Piedade
16 - Mulher O Suficiente

Bis

17 - Retrato Em Branco E Preto
18 - Esconderijo
19 - Com A Boca No Mundo

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Oscar 2013 - Palpites e Torcida




Não costumo postar sobre cinema por aqui, mas hoje resolvi abrir uma exceção, já que essa foi uma das raríssimas vezes em que assisti todos os indicados a melhor filme antes da cerimônia do Oscar e vi muitos outros que disputam as categorias em geral.

Segue abaixo uma lista com algumas categorias do prêmio, os meus palpites de ganhadores (que sempre correm o risco de estarem completamente equivocados) e os que eu gostaria que ganhassem.




Melhor Filme

"Indomável sonhadora"
"O lado bom da vida"
"A hora mais escura"
"Lincoln"
"Os Miseráveis"
"As aventuras de Pi"
"Amor"
"Django livre"
"Argo"

Palpite: Argo ou Lincoln

Quem eu gostaria que ganhasse: As Aventuras de Pi

Apesar da academia não ter indicado o Ben Affleck como melhor diretor, acredito que Argo pode levar a estatueta de melhor filme, é um tipo de história que a premiação gosta e pode servir como “um agrado’ ao diretor, que conquistou vários prêmios por aí, mas de fato é um bom filme, não meu favorito, mas não seria injusto se vencesse. Lincoln é aquele estilo classicão que o Oscar adora, tudo somado ao prestígio de Steven Spielberg e atuações sensacionais. Mas, no geral, o filme é monótono e cheio de clichês. As Aventuras de Pi tem, além do visual chapante, uma história bonita e conduzida com uma delicadeza que equilibra com maestria o universo fantasioso de uma aventura no mar com a questão da fé, que é o fio condutor da história, sem contar o ótimo final.



Diretor 
Michael Haneke ("Amor")
Benh Zeitlin ("Indomável sonhadora")
Ang Lee ("As aventuras de Pi")
Steven Spielberg ("Lincoln")
David O. Russell ("O lado bom da vida)

Palpite: Steven Spielberg

Quem eu gostaria que ganhasse: Ang Lee
Sem Ben Affleck e Kathryn Bigelow na disputa, Spielberg deve levar fácil, mas dos 5 é o que eu menos gostaria, fecho com Ang Lee.



Ator

Daniel Day-Lewis ("Lincoln")
Denzel Washington ("Voo")
Hugh Jackman ("Os miseráveis")
Bradley Cooper ("O lado bom da vida")
Joaquin Phoenix ("O mestre")

Palpite: Daniel Day-Lewis

Quem eu gostaria que ganhasse: Joaquin Phoenix

Essa é barbada. Daniel Day-Lewis adquiriu com o tempo um status quase imbatível, ainda mais representando uma personalidade americana do calibre de Abraham Lincoln. De fato Day-Lewis é incrível e está ótimo no papel, mas eu ficaria com a insanidade de Joaquin Phoenix em O Mestre, que interpretou brilhantemente um dos personagens mais complexos e asquerosos da sua carreira.



Atriz 

Naomi Watts ("O impossível")
Jessica Chastain ("A hora mais escura")
Jennifer Lawrence ("O lado bom da vida")
Emmanuelle Riva ("Amor")
Quvenzhané Wallis ("Indomável sonhadora")

Palpite: Jessica Chastain

Quem eu gostaria que ganhasse: Emmanuelle Riva

Jessica Chastain está muito bem em A Hora Mais Escura, mas Emmanuelle Riva, com seus 85 anos, está hipnotizante em Amor. Só com o olhar ela é capaz de mover montanhas.



Ator Coadjuvante 

Christoph Waltz ("Django livre")
Philip Seymour-Hoffman ("O mestre")
Robert De Niro ("O lado bom da vida")
Tommy Lee Jones ("Lincoln")
Alan Arkin ("Argo")

Palpite: Tommy Lee Jones

Quem eu gostaria que ganhasse: Philip Seymour-Hoffman

Acredito que essa seja a categoria mais acirrada dessa edição do Oscar. Cinco pesos pesados em atuações inspiradíssimas. Nenhum que ganhar será injusto, mas Philip Seymour-Hoffman consegue ser ao mesmo tempo assustador e acolhedor como o mentor religioso de O Mestre. Brilhante.



Atriz Coadjuvante 

Sally Field ("Lincoln")
Anne Hathaway ("Os miseráveis")
Jacki Weaver ("O lado bom da vida")
Helen Hunt ("The sessions")
Amy Adams ("O mestre")

Palpite: Anne Hathaway

Quem eu gostaria que ganhasse: Amy Adams

Anne Hathaway é a atriz queridinha da América e venceu o Globo de Ouro, então, a lógica deve se cumprir. Mas, para mim, não cola. Já não bastasse Os Miseráveis ser um chatice incalculável, Hattaway é só caras e bocas e muito melodrama. Enquanto Amy Adams interpreta o par ideal para o personagem de Philip Symour-Hoffman em O Mestre, amável, solidária e dominadora.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Raça Negra here, there and everywhere




Você já sabe de todo aquele papo sobre a relação da geração atual com as músicas do Raça Negra, já cansou de ouvir que o som deles "faz parte da memória afetiva e tocava nos churrascos de domingo da familia". De toda forma é inevitável notar que nos últimos meses o nome do grupo tem sido alardeado com mais força pela internet (ao menos no meu círculo de contatos), o que mostrou pra muita gente que a qualidade das canções vai muito além da nostalgia familiar noventista.

Em meio a tudo isso, dois fatos colocaram o Raça Negra de forma mais efetiva no meu caminho novamente depois do sucesso que fizeram nos anos 90. O primeiro motivo: o camarada Jorge Wagner, depois de muito planejar, colocou em prática, junto com o site Fita Bruta, o projeto Jeito Felindie. Que é, como o nome sugere, um tributo de bandas indie ao Raça Negra. Lançado oficialmente sexta passada (12/10) para audição e download, o trabalho conta com doze versões feitas por bandas dos mais variados perfis.


O outro acontecimento que me trouxe o grupo de Luís Carlos (sim, o da língua prefffa) a tona, foi o show deles na minha cidade, Araçatuba. Preço honesto, data propícia, namorada interessada e ao menos um amigo disposto a encarar junto comigo. Não dava pra perder. Combinei, comprei os ingressos e fui.

A primeira música da apresentação foi a simbólica “Cheia de Manias” (ou “a do dididididiê”). Daí em diante você já pode imaginar a avalanche de hits... mas sobre o show em geral, algumas coisas devem ser destacadas: Luiz Carlos já está com a voz bastante desgastada e durante a execução do repertório se apoiou no coro ou “na galera” em vários momentos; o filho dele subir no palco e cantar umas SETE músicas foi extremamente desnecessário; no meio de tantos sucessos, tocar covers de músicas famosas, incluindo “Não Quero Dinheiro” DUAS vezes, também foi pra lá de dispensável. Mas parece que ninguém se importou com isso.

A quantidade de hits e a forma como eles são cantados e celebrados falava por si só. Poucas vezes vi tanta devoção a um artista no palco. Logo na minha frente estavam dois rapazes, irmãos gêmeos, um deles com a namorada e ainda uma terceira irmã com o namorado. A emoção dos dois irmãos era uma coisa tão contagiante que não tinha como não acompanhar todos os movimentos. A cada música que começava eles pulavam, se abraçavam, acenavam para o alto e cantavam... muito, cada palavra de cada letra de cada música. De vez em quando viravam para as outras pessoas que estavam com eles e diziam coisas como “essa música é do disco tal, tocava em tal lugar, lembra?”. A irmã e a namorada estavam seriamente preocupadas, temendo que eles pudessem passar mal de tanta emoção.

Eles não eram os únicos, todas as músicas ganharam um coro potente e emocionado ao vivo. É difícil destacar um momento específico de destaque na apresentação, mas “Jeito Felino” e “Poderosa” foram bastante celebradas e encerraram um show longo e intenso.

"ffe não tiver voffe, o meu coraffão chora"

É possível que os gêmeos emocionados nunca tenham ouvido falar de Giancarlo Rufatto, ou que poderiam não curtir a melodia desconstruída na versão folk de “Maravilha”. Talvez pudessem achar que o Nevilton tocando “Vida Cigana” tenha ficado muito pauleira, ou que “Jeito Felino” e “É Tarde Demais” teriam ficado esquisitas por demais nas versões de Letuce e Harmada. Por outro lado, poderiam se encantar com a voz doce da Vivian Benford em “Cheia de Manias”, ou aprovar o acento pop que “Quando Te Encontrei” ganhou na versão do Amplexos. Quem sabe...

No final das contas tudo isso é muito relativo, o que sobra é que tanto eu quanto você, o Jorge Wagner, o pessoal do Fita Bruta, os gêmeos, os indies e os pagodeiros gostamos de boas músicas, e todos podemos concordar que o Raça Negra já fez muitas e elas estão aí, de várias formas, na turnê revival que passou por Araçatuba e no Jeito Felindie, na dúvida não escolha, viva com todas. 


Indididididiê

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Acertando as contas com Herbert Vianna



Lembro que tinha uns 11 anos e estava em uma festa de casamento ou algo do tipo em Auriflama, cidade onde cresci. Meu tio me chamou para ir a Araçatuba ver o show dos Paralamas Do Sucesso, ele ia levar meus primos e me convidou. Provavelmente era 1996. Só me recordo vagamente da data por lembrar que a turnê era do disco Nove Luas, lançado neste mesmo ano. Por mais que me esforce não consigo lembrar por qual motivo acabei recusando o convite, fiquei lá na festa, fazendo sei lá o que. Por muitos anos ouvi elogios irritantes a respeito desse show que perdi, com direito a pessoas dizendo que se tornaram fãs da banda após essa apresentação.

Gostar de shows (que não sejam sertanejos) no interior é sempre uma luta, quando aparece alguma coisa bacana na região, a galera tenta se juntar e se organizar pra ver. Na adolescência íamos de van, ônibus, carona, o que desse... Nessas muitas aventuras consegui ver quase todas as bandas de rock nacional mais famosas na época (Titãs, Ira!, Ultraje, Engenheiros, Raimundos...), mas com os Paralamas eu tinha uma espécie de maldição, nunca dava pra ir, sempre aparecia algum problema de última hora.

Pelas minhas imprecisas contas, perdi a oportunidade de vê-los, ao menos umas 5 vezes. Pelos mais variados motivos: falta de grana, trabalho, não ter como ou com quem ir...


Até que, depois de 16 anos (de repente me sinto MUITO velho após calcular esse tempo), me deparo com o anúncio de um show dos Paralamas em Araçatuba, cidade em que hoje moro. Garanti meu ingresso assim que pude, iria não só pela vontade de ver a banda ao vivo, mas também para sanar essa minha “dívida” com a banda, deixar tudo acertado (se você pensou que tenho algum tipo de TOC, ok, não te julgo).

Se você, leitor desse blog, não passou os últimos anos em uma caverna ou em alguma galáxia distante nem preciso citar o grave acidente que deixou Herbert Vianna em uma cadeira de rodas e que, felizmente, não abreviou sua carreira.

Chegando a casa de shows, baseado no visual das pessoas, imaginei que por engano tivesse entrado em alguma balada comum da cidade ou algo do tipo, mas ok, ao menos meu conturbado encontro com a banda seria em ~grande estilo~.

A estrutura do salão, que ficou lotado minutos antes do show, contava com um (broxante) espaço reservado com cadeiras na frente do palco, pista comum (onde fiquei) e um camarote que na verdade era uma espécie de mezanino, onde muitas pessoas se amontoavam nas beiradas para ter uma visão melhor do palco. Aliás, algumas pessoas, porque muitas não estavam dando a mínima para o show, vi gente dando as costas para o palco, possivelmente mais preocupados com a bebida (o camarote era open bar) e com a ~azaração~.



A turnê atual é do disco ao vivo lançado pelo Multishow, mas o repertório do show não seguiu a risca esse roteiro. O início, com “Sem Mais Adeus” e “Dos Margaritas”, foi morno, mas bastou soarem os primeiros acordes de “Óculos” para a euforia tomar conta do salão, considerando o jeito blasé da ~galera da balada~, claro. E eu ali, enfim vendo aqueles caras no palco.

Daí em diante, muitos hits certeiros, “O Beco”, “Ela Disse Adeus”, “Uma Brasileira”, “Cuide Bem Do Seu Amor”, essa última acompanhada por um coro considerável do público, bonito! A cada música, se firmava ali a certeza da representatividade dos Paralamas para o rock nacional. Uma banda sempre coesa, corajosa em sua trajetória, relevante até hoje e, o mais importante, foi o grupo que passou pelos maiores percalços em sua história e continua firme.

Baixada um pouco a empolgação inicial comecei a pensar nesses últimos anos, em todas as mudanças que aconteceram. A banda que perdi a chance de ver tempos atrás para muitas pessoas é outra. Evidentemente a dinâmica de palco mudou depois do acidente de Herbert Vianna, mas a força das canções estava ali naquele palco, intacta. E quando consideramos todo o histórico de superação tudo fica ainda mais intenso, mas que fique claro, quando falo em superação e intensidade não me apoio nesse apelo sentimental provocado pela situação de Herbert para idolatrar tudo e qualquer coisa que ele faça, para comprovar basta saber que dois grandes momentos do show foram com canções pós-acidente, a já citada “Cuide Bem Do Seu Amor” e “O Calibre”.


Em “Tendo A Lua” a emoção se intensificou, ao menos considerando meu lado pessoal, que falou mais alto. Além de ser uma das minhas músicas favoritas da banda, veio forte a lembrança de um grande amigo e grande fã dos Paralamas que se foi. “Cartas e fotografias, gente que foi embora...”. As lágrimas teimosas pareciam contrastar com a visão de superação e alegria que o colorido palco nos mostrava.

No palco o trio conta, como de costume, com João Fera nos teclados, Monteiro Jr no sax e Bidu Cordeiro no trombone. Enfileirados na frente do palco ficam os três “Paralamas”: Bi Ribeiro, sempre com sua timidez e aquela cara que te dá vontade de chamá-lo pra tomar umas no boteco; João Barone, dando aula na bateria; e Herbert, com uma expressão juvenil de felicidade, aparentemente emocionado com cada vez que as pessoas cantavam mais alto que ele, tocando muito e cantando bem, nunca foi um grande cantor, mas sempre soube disso e entendeu perfeitamente suas limitações. 




Quase todas as músicas soavam mais encorpadas e com instrumental valorizado ao vivo, seja no peso ou na delicadeza de detalhes. Ironicamente a pior execução da noite foi no momento mais esperado, “Meu Erro”, a música que todos sabiam cantar a letra toda apareceu muito rápida, embolada, confusa e ainda com Herbert tendo dificuldade para chegar no tom.

O bis final foi encerrado com “Vital E Sua Moto”, do primeiro disco da carreira. Parecia um ciclo se fechando, obviamente foi mais (bom) um show entre muitos que a banda fez e continua fazendo, mas pra mim valeu o acerto de contas. Justo nesse momento em que estou ouvindo muito rock nacional anos 80 posso dizer, sim, enfim eu vi um show dos Paralamas Do Sucesso.