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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Titãs em Araçatuba – O peso da experiência


Em 2013 o Titãs completa 31 anos de história. Período suficiente para cravar o nome no imaginário do rock nacional dos anos 80, seguir tocando na década seguinte, perder metade de seus integrantes fundadores e viver inúmeros encontros e desencontros com os fãs. Com esse rico histórico nas costas, Paulo Miklos, Branco Mello, Tony Belloto e Sergio Britto desembarcaram em Araçatuba no último sábado, na mesma casa de shows em que os Paralamas do Sucesso se apresentaram há exatamente um ano e uma semana atrás.  

Leia sobre o show dos Paralamas aqui.

A noite começou com uma ponta de frustração. A área vip, sim, a tão discutida área vip (ou seja lá qual nome tenham dado pra essa aberração) estava lá. Um espaço com mesas localizado logo a frente do palco. No show de um ano atrás isso já existia, mas dessa vez ocupava inacreditavelmente metade do salão. Isso sem falar que já havia um lugar diferenciado da pista, um mezanino em volta de quase todo o espaço, onde, se houvesse bom senso, deveria ser o único lugar alem da pista comum.

Enquanto isso, no palco acontecia algum oba-oba dos patrocinadores do show, algo meio difícil de entender, um garoto de uns 7 anos tocava bateria acompanhando um adulto no baixo (!!!). Durou apenas alguns minutos. Até que um pouco mais tarde subiu ao palco a banda de abertura, pelo nome do grupo local já dava para prever tudo, Diretoria Pop. Versões insossas de sucessos do pop rock nacional anos 80 e 90. Não chegou a ferir os ouvidos, mas tudo tinha aquela cara de “já vi mil vezes e muito melhor”. Diferente do ótimo e também local, RockNatu, que abriu para os Paralamas.

Área vip bombando #sqn


O saldo da noite até então era desanimador. Tudo apontava para o pensamento de: “O que que eu to fazendo aqui?”. Mas o principal ainda estava por vir, então, tudo era relevável. Com aproximadamente meia hora de atraso, os Titãs remanescentes mais o baterista Mario Fabre apareceram no palco. Havia certa apreensão sobre como seria o repertório, uma duvida de como ele poderia ser dividido entre o excelente período clássico da banda e a fraca safra mais recente. Possivelmente a primeira música diria muito sobre como seria a noite. E disse.

Sem falar nada a banda começou com a bateria introduzindo “Lugar Nenhum” em versão arrasadora. Esqueça arranjos de cordas, banjos e bandolins. No palco a banda adotou o formato cru, simples e direto. Fabre na bateria, Paulo Miklos e Tony Belloto nas guitarras (e apenas guitarras, nenhuma música com violão), Branco Mello no baixo e Sergio Britto no teclado e por vezes no baixo.

O setlist seguiu com a ótima versão de “Aluga-se” (do irregular disco “As Dez Mais”), “Diversão”, “Sonífera Ilha”, tudo rápido, urgente, como uma banda iniciante, mas com aquela segurança que três décadas de carreira trazem com facilidade.

Os hits vinham aos montes: “Homem Primata”, “Flores”, “O Pulso”, “Comida”. Da leva mais recente (leia-se: dos últimos 12 anos), veio “A Melhor Banda De Todos Os Tempos Da Ultima Semana”, que se não é grande coisa ao menos não compromete ao vivo, e “Epitáfio”, que quando pareceu que ia dar uma amolecida no show, o refrão veio pesado, áspero, contrastando (ou talvez até fazendo mais sentido) com a melodia melancólica.

Foto: Patrícia Guerra

No palco, os três vocalistas mostravam estilos distintos, mas harmoniosos entre si: Miklos era o mais roqueiro, com movimentos marcantes; Branco se portava com muita elegância, mesmo quando cantava aos berros parecia não se abalar; Já Sergio Britto era o mais elétrico, não parava no palco, interagia com o público e só se mostrava um pouco inseguro quando empunhava o baixo.

Antes de “Vossa Excelência”, Paulo Miklos, falou rapidamente sobre o caso da discussão entre os ministros Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, em que o primeiro acusa o segundo se fazer “chicana”. O vocalista terminou o relato com um sonoro “Vai tomar no cu”, o que introduziu a música aqui parecendo mais raivosa do que de costume.

“Estamos voltando a tocar essa depois de muito tempo, vamos ver como sai”, disse ainda Miklos, antes de começar “Domingo”. Uma das mais comemoradas pelos fãs de longa data foi “Desordem”, em versão alternando tensão e explosão. Outra versão a se destacar foi a feita para “Go Back”, comumente transformada em balada melosa por aí, no show surgiu como um reggae/dub que crescia entre dissonâncias no refrão.

Foto: Patrícia Guerra

“Polícia” foi tão rápida e tão pesada que faria inveja a regravação do Sepultura. Ainda em meio a “sujeira”, o show teve “Bichos Escrotos”, “AAUU” e “Cabeça Dinossauro”. Terminado o set normal, o bis começou com “Família”, única música da noite sem peso nas guitarras, e “Marvin”, uma das mais cantadas da apresentação.

Depois de deixarem o palco, a espera belo bis derradeiro vinha acompanhada da dúvida. O que viria? Algum hit arrasador? Algum som mais obscuro para os fãs? Paulo Miklos disse: “vamos tocar a saideira agora”. E veio o cover de “É Preciso Saber Viver”, e com ele uma grande brochada. Como poderia um show tão poderoso, terminar com uma balada? Mas felizmente a decepção não durou muito, logo no primeiro refrão Miklos já berrava de forma insandecida e as guitarras repetiam o vigor mostrado ao longo do show. No fim, o coro do público e um break emocionante antecederam o refrão final.

Com 31 anos, a primeira coisa a se pensar é em uma crise de meia idade, uma necessidade de saber qual caminho está seguindo, mas essa lógica para bandas é diferente, ainda mais para os Titãs. Coloque na balança a euforia da juventude, a ponderação - ou porque não, a caretice - da idade adulta, e encontre o equilíbrio necessário para voltar, com segurança, ao formato de apresentação mais simples possível, agradar novos e velhos fãs e flutuar com segurança entre as bandas mais importantes do rock brasileiro. Em 2014 os Titãs devem lançar disco novo, se as apresentações ao vivo forem o parâmetro, certamente teremos a banda no auge da maturidade que apenas grandes nomes conseguem alcançar. 



Setlist (a ordem não é exatamente essa, mas algo próximo disso)

01 - Lugar Nenhum
02 - Aluga-se
03 - Diversão
04 - Sonífera Ilha
05 - Homem Primata
06 - A Melhor Banda De Todos Os Tempos Da Ultima Semana
07 - Epitáfio
08 - Go Back
09 - Flores
10 - O Pulso
11 - Pra Dizer Adeus
12 - Comida
13 - Desordem
14 - Domingo
15 - Vossa Excelência
16 - Televisão
17 - AAUU
18 - Policia
19 - Bichos Escrotos
20 - Cabeça Dinossauro

Bis1:

21 - Família
22 - Marvin

Bis2:

23 - É Preciso Saber Viver

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Animal Nacional - Vespas Mandarinas




Se procurarmos uma referência geral do rock feito no Brasil, podemos puxar na memória e colocar Os Mutantes no topo da lista, ou mesmo destacar a inocência dos roqueiros da Jovem Guarda, mas a impressão que fica é que o termo “Rock Nacional” é inevitavelmente ligado às bandas dos anos 80: Titãs, Ira!, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e tantas outras.

Mesmo três décadas depois, essa cena ainda é uma referência forte, menos musicalmente e mais como um símbolo. Ainda existe um carinho e uma consideração quando se fala desse período. O tempo passa e muitos elementos da cultura em geral vão se revelando estritamente frutos de um período específico, e com o “Rock 80 Brasil” não é diferente.

Pode ser que ainda não tenha passado tempo suficiente e que daqui a 10 anos essa reverência seja direcionada a bandas da década seguinte, como Raimundos, Planet Hemp ou… Charlie Brown (!!). Não temos como saber, ainda.

Cortando para 2013, ou mesmo a partir de 2010, o rock brasileiro, ao menos pensando em mainstream, inexiste. E mesmo no underground, as bandas independentes legitimamente roqueiras não são muitas que conseguem se destacar – levando em conta que critérios para classificar uma banda como “rock” são cada vez mais variáveis e muitas vezes desnecessários.




A banda paulistana Vespas Mandarinas vai além do simbolismo e traz também um pouco do som e da temática oitentista em seu álbum de estreia, “Animal Nacional”. O grupo, formado por Chuck Hipolitho (Forgotten Boys), Thadeu Meneghini (Banzé), André Dea e Flávio Guarnieri (Sugar Kane), resgata em seu debute o imaginário de várias bandas do período.

O disco começa bem com a urbana “Cobra de Vidro” e também “Não Sei O Que Fazer Comigo”, versão de “Ya No Sé Qué Hacer Conmigo”, da ótima banda Uruguaia El Cuarteto De Nos, com vários versos adaptados. Em seguida vem “Santa Sampa”, escrita em conjunto com Bernardo Vilhena. Como o título da música sugere, o tema é a vida em São Paulo. O disco, como um todo, tem várias referências a capital paulista.

“Animal Nacional” tem uma ligação bastante íntima com o último trabalho do Banzé, o subestimado “Antes da Queda” (2008), onde aparecem originalmente as músicas “Cobra de Vidro” e “Um Homem Sem Qualidades”, as duas com versões ligeiramente melhores do que as que entraram no álbum do Vespas. Mas a semelhança dos dois discos vai além, a aspereza das guitarras e os temas urbanos das letras aproximam os dois trabalhos.




Os vocais das músicas são divididos entre Chuck e Thadeu (seis músicas para cada um). Em “O Amor E O Acaso”, o ex-Forgotten Boys canta uma letra de amor quase simplória: “Mas como é que ele vai te achar / Se você se esconde / Vai ver você já encontrou o amor / Só você não sabe”. Já em “O Vício E O Verso” (sim, os títulos das músicas tem um “quê” de Engenheiros do Hawaii) Thadeu canta em meio a guitarras cheias de efeitos que remetem, mais uma vez, aos anos 80. As frases prontas “O vício e o verso / Navegar é preciso /Meu rumo é o inverso / E viver é um preciso, meu amor” são facilmente relevadas pelo vigor da música, principalmente no refrão, onde o vocal intenso beira o desafinado.

“A Prova”, parceria com Arnaldo Antunes, é leve e simpática – quando começa a soar muito repetitiva, felizmente termina. “Só Poesia” também se repete bastante, mas dessa vez com mais peso e uma sutil lembrança de Queens Of The Stone Age. Os versos quase lineares culminam em um bom refrão. “O Inimigo” é suja e fala de uma certa maldade decadente. “Rir No Final” mantém o peso, agora com uma letra rancorosa e ressentida.

“Distraídos Venceremos” é quase uma balada com jeitão de hino nerd, mas não é. A canção derradeira é “O Herói Devolvido”, uma faixa desajeitada e divertida que traz, novamente, um amontoado de frases feitas: “Quanto mais eu rezo / Mais assombração me aparece / Na vida a gente não tem o que quer / A gente tem o que merece”.

“Animal Nacional” não sinaliza nenhuma “nova” tendência, e nem tem intenção de, mas faz um resgate interessante do rock brasileiro anos 80, felizmente não embriagado pelo saudosismo. É um disco com alguns bons momentos e outros nem tanto, e talvez o grande charme do álbum seja essa irregularidade, que pode ser associada à forma como ouvimos as bandas oitentistas hoje, ou como Chuck canta em “O Herói Devolvido”: “Tá todo mundo tão preocupado em ser perfeito / mas no final o que faz falta é o defeito”.


segunda-feira, 27 de maio de 2013

Virada Cultural Paulista 2013 - Araçatuba


Acompanho a Virada Cultural Paulista desde o início no interior, todos os anos tento assistir o máximo de atrações possíveis em Araçatuba, especialmente os shows. Em 2012, justamente quando a programação da cidade estava ótima (Luiz Melodia, Bidê Ou Balde, Macaco Bong, Ultraje A Rigor, Letuce) eu estava em São José do Rio Preto por motivos de trabalho, onde peguei o ótimo show da Céu e ainda Vanessa Da Mata. Já em 2013, volto para Araçatuba.


Neste ano não pude acompanhar a programação do sábado. Não havia nada que me chamasse atenção, mas se pudesse iria mesmo assim. Os shows foram do cantor araçatubense de pop rock, Brunno Carvalho, Luíza Possi, Negra Li e The “Amy Lives” Project, uma espécie de tributo a Amy Winehouse, capitaneado pelo tecladista que acompanhava a cantora. Obs: caros leitores do blog que acompanharam a programação do sábado, fiquem a vontade para postar impressões na caixa de comentários.

No domingo, a Praça Getúlio Vargas recebeu três shows, do grupo paulistano 5 A Seco, Marcelo Jeneci e Almir Sater. 


5 A Seco


Marcado para as 15h30, o show começou com alguns minutos de atraso. O público ainda começava chegar à praça, havia sol, mas o clima era agradável, tudo colaborando com a tarde de Virada. Os cinco rapazes do 5 A Seco subiram ao palco enquanto uma harmonia gravada ressoava. Antes de pegar os instrumentos eles começaram a cantar “Gargalhadas”, cada integrante cantando um trecho, como em um jogral. O que se viu a partir daí foi uma série de versos e harmonias milimetricamente adocicadas para encantar o coração de jovens universitárias que precisam de um som (pretensamente) cult para se apegar.

Os cinco integrantes do grupo são exímios multi-instrumentistas, se revezam entre seus instrumentos a todo momento. Mas o show, assim como o som da banda é de um bom mocismo entediante, algo como um Teatro Mágico sem máscaras. Até os fãs, que no início pareciam extasiados, no decorrer do show tiveram momentos de dispersão.

Nas melhores partes, a apresentação lembrou Lenine em seus momentos mais experimentais, nas piores (e predominantes) lembrou o já citado Teatro Mágico e Maria Gadú, com quem já tiveram parceria. O lucro da história toda foi eles não terem se atrevido a tocar a versão vergonha alheia de “Ai Se Eu Te Pego” que às vezes tocam em shows. Se quiser ver como é, clique AQUI, mas não diga que não avisei.

Marcelo Jeneci



Logo que cheguei na praça encontrei um amigo que me perguntou: “Que tipo de som esse Jeneci faz?”, respondi: “Alguém no twitter definiu como ‘Balão Mágico para adultos’ e o próprio Jeneci aprovou”. Esse mesmo amigo, agora, deve estar pensando que eu estava sacaneando ou não estava falando coisa com coisa. O motivo? O peso do show. A banda, composta por Richard Ribeiro na bateria, Régis Damasceno no baixo e Estevan Sinkovitz e Ricardo Prado nas guitarras ajudaram mostrar para o público da Virada um Jeneci roqueiro e intenso. Especialmente os dois guitarristas, que fazendo jus ao que o estereótipo sugeria (barbudos, tatuados, grandes), encheram o show de solos e sons pesados.


Jeneci entrou no palco com os olhos pintados, cabelo arrepiado e vestindo um poncho colorido (sim, precisei de uma consultoria de moda para saber que aquilo se chamava poncho). Além dele e da banda já citada havia a Laura Lavieri (aaaahhhh, Laura...[suspiros]). Mesmo com sua timidez indisfarçável, a cantora estava muito sexy em um vestido preto, curto, com as costas a mostra, além do fato de ser uma peça fundamental ao som do grupo com sua voz doce e ao mesmo tempo potente.


As duas primeiras músicas foram de arrepiar, “Tempestade Emocional” e o cover de “Astronauta”, de Roberto Carlos, apareceram intensas, longas, quase épicas. Foi positivamente surpreendente ver uma banda pilhada daquele jeito quando tudo o que se esperava era doçura e sutileza. Houve sim momentos mais líricos, especialmente nas duas músicas mais festejadas pelo público: “Felicidade” e “Pra Sonhar”. Nessa última, com um espetáculo a parte dos pássaros sobrevoando a praça, até a banda ficou um tempo parada olhando para o céu. Tudo isso somado ao sol, que se recolhia naquele momento, contribuiu para o clima bonito que imperava no local.


“Feito Pra Acabar” foi hipnotizante, talvez seja a música em que Jeneci tenha achado o equilíbrio exato entre beleza, intensidade e poesia, especialmente nessa versão ao vivo. Seria muito interessante se isso fosse uma pista dos caminhos que o som do cantor pode trilhar futuramente.

Se a apresentação começou densa e climática, terminou leve e festeira com “Pense Duas Vezes Antes De Esquecer” e “Show De Estrelas”. Jeneci encerrou o setlist dizendo que “valeu muito a pena vir de tão longe” e disse ainda para as pessoas irem mais à praça, caminhar, olhar os pássaros... provavelmente essas palavras vão se perder em meio a euforia do que o público acabara de presenciar, mas a sensação de ter visto um show para se guardar na memória... essa ainda deve perdurar, ao menos todas as vezes que qualquer um ali ver uma revoada de pássaros em um belo entardecer novamente.



Almir Sater


O fechamento da Virada Cultural Paulista ficou por conta do violeiro sul-mato-grossense Almir Sater, bem como a incumbência de fazer o “show família” dessa edição. Fazer as vezes de Moraes Moreira, Fafá de Belém e Luiz Melodia em edições anteriores do evento em Araçatuba. Quando o cantor e compositor subiu no palco encontrou a praça lotada, naquela altura a faixa etária ia, como diz minha avó, “de mamando a caducando”.

Além da viola de Sater, a banda enxuta conta com dois violões, baixo e acordeom. Após a primeira música, um tema instrumental, o show já seguiu com “Trem Do Pantanal”. O som saía cristalino das caixas, todas as nuances dos solos na viola, dos abafados nos violões, tudo era percebido com nitidez. Aqui cabe um elogio aos técnicos, os três shows da tarde estavam com o som impecável, diferente, por exemplo, da virada de 2011, quando Zeca Baleiro sofreu com a má qualidade do áudio. 

Que Almir Sater já entrou em campo com o jogo ganho é verdade, mas isso não foi motivo para qualquer descuido na apresentação, tudo fluía perfeitamente, quando as pessoas não cantavam junto, dançavam, ou apenas admiravam. A mistura sonora viajou da guarânia ao blues sem perder a identidade.  


Sem muito alarde, o que combina perfeitamente com a simplicidade do cantor, apareceram os primeiros acordes de “Tocando Em Frente”, sem sombra de dúvidas a música mais esperada de 90% do público presente. Mesmo depois de tanto tempo, a beleza dos versos continua intacta. A música terminou e o público permaneceu cantando. “Que bonito!” exclamou o cantor.

O cansaço começava a bater em quem já estava cruzando a sexta hora em pé, mas, em contraponto, o som que vinha do palco acalmava, trazia tranquilidade. E assim a Virada Cultural Paulista 2013 foi encerrada em Araçatuba, com o melhor clima possível. Sempre que uma nova edição termina fica aquele pensamento de como seria bom uma dessas pelo menos a cada três meses... mas já que temos que nos conformar, que venha a edição de 2014.

domingo, 28 de abril de 2013

Ana Cañas "quase ao vivo" em Birigui


Tudo começou algumas semanas antes do show. Coincidentemente, assim que foi anunciado no SESI-Birigui, o Marcelo Costa publicou no Scream & Yell algumas considerações sobre Volta, o disco de 2012 da Ana Cañas, que eu lamentavelmente tinha deixado passar. Fui, então, ouvir o trabalho, achei incrível, o equilíbrio exato entre a elegância do primeiro disco e a veia pop do segundo.

Até que chegou o dia do show. Pra quem não sabe, moro em Araçatuba, mais ou menos 10km distante de Birigui. O esquema de shows e peças no SESI é o seguinte: os ingressos começam a ser distribuídos uma hora antes do início da apresentação, ou seja, show marcado para 20h, retirada das entradas a partir das 19h.

Por conta da correria consegui chegar às 19h20 e não havia mais lugares entre os 250 que o teatro comporta (soube que tinha gente por lá desde às 17h30). Tive que me contentar com uma estrutura que o SESI montou ao lado do teatro, com um telão mostrando o show. A princípio foi uma broxada colossal, pra quem esperava ver a cantora com todo o intimismo que um show em teatro sugere, tive que me contentar com uma espécie de Live Stream do You Tube em tamanho maior.

Por conta de todo esse desencontro tive até dúvidas se escreveria algo sobre o show, com medo de soar como aquelas resenhas cheias de propriedade escritas por quem prestigiou um evento diretamente do sofá da sala. Mas mesmo com todas as adversidades acredito que a experiência vale ser destacada.


Aqui cabe um elogio a pessoa que operava a câmera destinada a transmitir as imagens para o telão. Mesmo com um único equipamento, o show foi transmitido com a sensibilidade de quem sabia o que se passava no palco. Movimentos espertos, atenção aos detalhes e closes generosos na bela cantora.

No palco, Ana Cañas já surgiu arrancando suspiros. Se o corpo estava coberto por um longo vestido preto que ia até os pés descalços, uma fenda destacava a pele branca, assim como o forte batom vermelho.

A primeira música, “Urubu Rei”, teve seu primeiro verso cantado à capela, para logo depois entrar uma guitarra ruidosa, tocada pela própria Ana Cañas. A voz saía límpida das caixas de som, a dinâmica ficava ainda mais evidente com o trabalho do competente power trio baixo-guitarra-bateria que acompanha a cantora.

O repertório foi composto quase que completamente por músicas do disco de 2012. Fugindo dessa regra, a terceira do show foi “Pra Você Guardei O Amor”, que alcançou grande sucesso com Nando Reis e participação da própria Ana Cañas. Na apresentação ela apareceu em uma versão com acento folk, contida nos versos e explosiva nos trechos instrumentais. Foi a primeira cantada em coro na noite.



Quando “Todas As Cores” e “Difícil” pareciam ter levado o show definitivamente para uma agradável leveza pop, a cantora foi para o canto do palco se posicionou quase que de costas para o público e cantou “No Quiero Tus Besos” e “Stormy Weather”, clássico do jazz cantado por Billie Holiday e vários outros artistas. Ali, depois da intensidade dessas duas músicas, ficou claro que no palco havia de fato uma entrega, não apenas mais uma cantora de MPB mais preocupada em ser cult-diva-descolada ou qualquer outro rótulo. Ressaltando, justificando e reforçando que tudo isso podia ser (e foi) notado por um telão a cerca de 10 metros de onde a cantora estava de fato.

Os momentos mais intensos no palco eram diametralmente opostos, além da parte mais intimista e dramática citada acima havia os momentos mais pesados, como no blues rock “Diabo” com um final caótico e dissonante e na versão surpreendente de “Rock’n Roll” do Led Zepellin (as duas também do Volta). Como citei essa semana no twitter, poucos artistas têm culhões para se arriscar em versões corajosas (e felizmente boas) de Led Zepellin e Bob Dylan (no primeiro disco ela regravou “Rainy Day Women #12 & 35”).

No repertório, além dos covers gravados em discos (“Stormy Wheater”, “Rock’n Roll”), ainda teve “Codinome Beija-Flor” e “Blues da Piedade” (Cazuza, essa última com direito a uma provocação ao deputado Marco Feliciano), “Metamorfose Ambulante” (Raul Seixas), “Escândalo” (Caetano Veloso, mas cantada por Ângela Ro Rô), “Mulher O Suficiente” (Alzira Espíndola, cantada por Tetê Espíndola), “Retrato Em Preto E Branco” (Chico Buarque e Tom Jobim) e “Com A Boca No Mundo” (Rita Lee). Todas muito bem executadas, mas fico pensando se valeu a pena  tocar 7 covers e deixar de fora do repertório ótimas músicas dos dois primeiros discos.

A única música além das do último disco e dos covers foi “Esconderijo”, do disco Hein?. Por muitos era a música mais esperada, foi tocada no bis, em clima de roda de violão, com coro da plateia, bonito. “Com A Boca No Mundo” fechou o show em alta, com peso e com direito a citação de “I Can´t Get No” no final.



Com o repertório definitivamente terminado, o que se via no palco era a figura esguia de Ana Cañas descabelada, com a maquiagem borrada, aparentemente exausta e feliz. A entrega, citada mais acima, era evidente. No Brasil, onde temos um histórico de cantoras como Elis Regina, Gal Costa e tempos depois Cássia Eller, que se acabavam no palco, expunham as entranhas em apresentações viscerais, ver a jovem e linda Ana Cañas é um grande alento. Ficou a certeza de que não foi apenas “uma apresentação em uma cidadezinha do interior”, e sim um SHOW, com letras maiúsculas e emoção a flor da pele, como todo show deve ou deveria ser, mesmo visto por uma tela a 10 metros do palco.

Fotos internas: Ana Araripe
Foto externa: Renata Santos


Setlist (se não me falha a memória)

01 - Urubu Rei
02 - Será Que Você Me Ama
03 - Pra Você Guardei O Amor
04 - Codinome Beija-Flor
05 - Todas As Cores
06 - Difícil
07 - No Quiero Tus Besos
08 - Stormy Weather
09 - L'Amour
10 - Rock'n Roll
11 - Escândalo
12 - Volta
13 - Diabo 
14 - Metamorfose Ambulante
15 - Blues Da Piedade
16 - Mulher O Suficiente

Bis

17 - Retrato Em Branco E Preto
18 - Esconderijo
19 - Com A Boca No Mundo

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Raça Negra here, there and everywhere




Você já sabe de todo aquele papo sobre a relação da geração atual com as músicas do Raça Negra, já cansou de ouvir que o som deles "faz parte da memória afetiva e tocava nos churrascos de domingo da familia". De toda forma é inevitável notar que nos últimos meses o nome do grupo tem sido alardeado com mais força pela internet (ao menos no meu círculo de contatos), o que mostrou pra muita gente que a qualidade das canções vai muito além da nostalgia familiar noventista.

Em meio a tudo isso, dois fatos colocaram o Raça Negra de forma mais efetiva no meu caminho novamente depois do sucesso que fizeram nos anos 90. O primeiro motivo: o camarada Jorge Wagner, depois de muito planejar, colocou em prática, junto com o site Fita Bruta, o projeto Jeito Felindie. Que é, como o nome sugere, um tributo de bandas indie ao Raça Negra. Lançado oficialmente sexta passada (12/10) para audição e download, o trabalho conta com doze versões feitas por bandas dos mais variados perfis.


O outro acontecimento que me trouxe o grupo de Luís Carlos (sim, o da língua prefffa) a tona, foi o show deles na minha cidade, Araçatuba. Preço honesto, data propícia, namorada interessada e ao menos um amigo disposto a encarar junto comigo. Não dava pra perder. Combinei, comprei os ingressos e fui.

A primeira música da apresentação foi a simbólica “Cheia de Manias” (ou “a do dididididiê”). Daí em diante você já pode imaginar a avalanche de hits... mas sobre o show em geral, algumas coisas devem ser destacadas: Luiz Carlos já está com a voz bastante desgastada e durante a execução do repertório se apoiou no coro ou “na galera” em vários momentos; o filho dele subir no palco e cantar umas SETE músicas foi extremamente desnecessário; no meio de tantos sucessos, tocar covers de músicas famosas, incluindo “Não Quero Dinheiro” DUAS vezes, também foi pra lá de dispensável. Mas parece que ninguém se importou com isso.

A quantidade de hits e a forma como eles são cantados e celebrados falava por si só. Poucas vezes vi tanta devoção a um artista no palco. Logo na minha frente estavam dois rapazes, irmãos gêmeos, um deles com a namorada e ainda uma terceira irmã com o namorado. A emoção dos dois irmãos era uma coisa tão contagiante que não tinha como não acompanhar todos os movimentos. A cada música que começava eles pulavam, se abraçavam, acenavam para o alto e cantavam... muito, cada palavra de cada letra de cada música. De vez em quando viravam para as outras pessoas que estavam com eles e diziam coisas como “essa música é do disco tal, tocava em tal lugar, lembra?”. A irmã e a namorada estavam seriamente preocupadas, temendo que eles pudessem passar mal de tanta emoção.

Eles não eram os únicos, todas as músicas ganharam um coro potente e emocionado ao vivo. É difícil destacar um momento específico de destaque na apresentação, mas “Jeito Felino” e “Poderosa” foram bastante celebradas e encerraram um show longo e intenso.

"ffe não tiver voffe, o meu coraffão chora"

É possível que os gêmeos emocionados nunca tenham ouvido falar de Giancarlo Rufatto, ou que poderiam não curtir a melodia desconstruída na versão folk de “Maravilha”. Talvez pudessem achar que o Nevilton tocando “Vida Cigana” tenha ficado muito pauleira, ou que “Jeito Felino” e “É Tarde Demais” teriam ficado esquisitas por demais nas versões de Letuce e Harmada. Por outro lado, poderiam se encantar com a voz doce da Vivian Benford em “Cheia de Manias”, ou aprovar o acento pop que “Quando Te Encontrei” ganhou na versão do Amplexos. Quem sabe...

No final das contas tudo isso é muito relativo, o que sobra é que tanto eu quanto você, o Jorge Wagner, o pessoal do Fita Bruta, os gêmeos, os indies e os pagodeiros gostamos de boas músicas, e todos podemos concordar que o Raça Negra já fez muitas e elas estão aí, de várias formas, na turnê revival que passou por Araçatuba e no Jeito Felindie, na dúvida não escolha, viva com todas. 


Indididididiê

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Acertando as contas com Herbert Vianna



Lembro que tinha uns 11 anos e estava em uma festa de casamento ou algo do tipo em Auriflama, cidade onde cresci. Meu tio me chamou para ir a Araçatuba ver o show dos Paralamas Do Sucesso, ele ia levar meus primos e me convidou. Provavelmente era 1996. Só me recordo vagamente da data por lembrar que a turnê era do disco Nove Luas, lançado neste mesmo ano. Por mais que me esforce não consigo lembrar por qual motivo acabei recusando o convite, fiquei lá na festa, fazendo sei lá o que. Por muitos anos ouvi elogios irritantes a respeito desse show que perdi, com direito a pessoas dizendo que se tornaram fãs da banda após essa apresentação.

Gostar de shows (que não sejam sertanejos) no interior é sempre uma luta, quando aparece alguma coisa bacana na região, a galera tenta se juntar e se organizar pra ver. Na adolescência íamos de van, ônibus, carona, o que desse... Nessas muitas aventuras consegui ver quase todas as bandas de rock nacional mais famosas na época (Titãs, Ira!, Ultraje, Engenheiros, Raimundos...), mas com os Paralamas eu tinha uma espécie de maldição, nunca dava pra ir, sempre aparecia algum problema de última hora.

Pelas minhas imprecisas contas, perdi a oportunidade de vê-los, ao menos umas 5 vezes. Pelos mais variados motivos: falta de grana, trabalho, não ter como ou com quem ir...


Até que, depois de 16 anos (de repente me sinto MUITO velho após calcular esse tempo), me deparo com o anúncio de um show dos Paralamas em Araçatuba, cidade em que hoje moro. Garanti meu ingresso assim que pude, iria não só pela vontade de ver a banda ao vivo, mas também para sanar essa minha “dívida” com a banda, deixar tudo acertado (se você pensou que tenho algum tipo de TOC, ok, não te julgo).

Se você, leitor desse blog, não passou os últimos anos em uma caverna ou em alguma galáxia distante nem preciso citar o grave acidente que deixou Herbert Vianna em uma cadeira de rodas e que, felizmente, não abreviou sua carreira.

Chegando a casa de shows, baseado no visual das pessoas, imaginei que por engano tivesse entrado em alguma balada comum da cidade ou algo do tipo, mas ok, ao menos meu conturbado encontro com a banda seria em ~grande estilo~.

A estrutura do salão, que ficou lotado minutos antes do show, contava com um (broxante) espaço reservado com cadeiras na frente do palco, pista comum (onde fiquei) e um camarote que na verdade era uma espécie de mezanino, onde muitas pessoas se amontoavam nas beiradas para ter uma visão melhor do palco. Aliás, algumas pessoas, porque muitas não estavam dando a mínima para o show, vi gente dando as costas para o palco, possivelmente mais preocupados com a bebida (o camarote era open bar) e com a ~azaração~.



A turnê atual é do disco ao vivo lançado pelo Multishow, mas o repertório do show não seguiu a risca esse roteiro. O início, com “Sem Mais Adeus” e “Dos Margaritas”, foi morno, mas bastou soarem os primeiros acordes de “Óculos” para a euforia tomar conta do salão, considerando o jeito blasé da ~galera da balada~, claro. E eu ali, enfim vendo aqueles caras no palco.

Daí em diante, muitos hits certeiros, “O Beco”, “Ela Disse Adeus”, “Uma Brasileira”, “Cuide Bem Do Seu Amor”, essa última acompanhada por um coro considerável do público, bonito! A cada música, se firmava ali a certeza da representatividade dos Paralamas para o rock nacional. Uma banda sempre coesa, corajosa em sua trajetória, relevante até hoje e, o mais importante, foi o grupo que passou pelos maiores percalços em sua história e continua firme.

Baixada um pouco a empolgação inicial comecei a pensar nesses últimos anos, em todas as mudanças que aconteceram. A banda que perdi a chance de ver tempos atrás para muitas pessoas é outra. Evidentemente a dinâmica de palco mudou depois do acidente de Herbert Vianna, mas a força das canções estava ali naquele palco, intacta. E quando consideramos todo o histórico de superação tudo fica ainda mais intenso, mas que fique claro, quando falo em superação e intensidade não me apoio nesse apelo sentimental provocado pela situação de Herbert para idolatrar tudo e qualquer coisa que ele faça, para comprovar basta saber que dois grandes momentos do show foram com canções pós-acidente, a já citada “Cuide Bem Do Seu Amor” e “O Calibre”.


Em “Tendo A Lua” a emoção se intensificou, ao menos considerando meu lado pessoal, que falou mais alto. Além de ser uma das minhas músicas favoritas da banda, veio forte a lembrança de um grande amigo e grande fã dos Paralamas que se foi. “Cartas e fotografias, gente que foi embora...”. As lágrimas teimosas pareciam contrastar com a visão de superação e alegria que o colorido palco nos mostrava.

No palco o trio conta, como de costume, com João Fera nos teclados, Monteiro Jr no sax e Bidu Cordeiro no trombone. Enfileirados na frente do palco ficam os três “Paralamas”: Bi Ribeiro, sempre com sua timidez e aquela cara que te dá vontade de chamá-lo pra tomar umas no boteco; João Barone, dando aula na bateria; e Herbert, com uma expressão juvenil de felicidade, aparentemente emocionado com cada vez que as pessoas cantavam mais alto que ele, tocando muito e cantando bem, nunca foi um grande cantor, mas sempre soube disso e entendeu perfeitamente suas limitações. 




Quase todas as músicas soavam mais encorpadas e com instrumental valorizado ao vivo, seja no peso ou na delicadeza de detalhes. Ironicamente a pior execução da noite foi no momento mais esperado, “Meu Erro”, a música que todos sabiam cantar a letra toda apareceu muito rápida, embolada, confusa e ainda com Herbert tendo dificuldade para chegar no tom.

O bis final foi encerrado com “Vital E Sua Moto”, do primeiro disco da carreira. Parecia um ciclo se fechando, obviamente foi mais (bom) um show entre muitos que a banda fez e continua fazendo, mas pra mim valeu o acerto de contas. Justo nesse momento em que estou ouvindo muito rock nacional anos 80 posso dizer, sim, enfim eu vi um show dos Paralamas Do Sucesso.



terça-feira, 22 de maio de 2012

Céu na Virada Cultural Paulista


O termo excludente, pretensioso e, por vezes, preconceituoso, “para poucos”, parece se encaixar bem a Céu. Do primeiro disco, “CéU”, com o certificado “emepebístico de coolzice” ao dub/reggae de “Vagarosa” até seu trabalho mais recente, “Caravana Sereia Bloom”, que vai do rock Roberto/Caetano “Falta De Ar” à sensualidade hipnótica de “Chegar Em Mim”, Céu parece sedimentar seu público com a sofisticação do seu som e, em alguns momentos, resvala no popular com trilhas de novela etc. E é aí que seu público pode abranger desde fãs de Tulipa Ruiz e Nina Becker até admiradores de Vanessa Da Mata e, por que não,  Maria Gadú.

O show segue essa mesma linha. Na Virada Cultural Paulista, em São José do Rio Preto, a apresentação começou pontualmente a meia noite, com “Teju Na Estrada” antecedendo a entrada da cantora e, enfim, “Falta De Ar”, seguida de “Asfalto E Sal”.

Logo nas primeiras músicas, Céu diz que está tudo muito bonito, mas lamenta pela barreira que deixa o público distante do palco. No entanto, em “Contravento”, música providencialmente mais intensa, e depois de alguma negociação, a grade é retirada pela produção e o público fica literalmente na beira do palco. “agora o show começou” disse Céu, nitidamente empolgada com a nova situação.


O som, muito bem equalizado, é encorpado, mesmo com uma banda enxuta: baixo, guitarra, bateria e scratches. No palco a cantora é contida, por vezes, blasé, mas a alegria em ver sua música cantada por algumas pessoas, que seja, teima em aparecer, dando uma espontaneidade tímida, desajeitada e, por isso mesmo, comovente à apresentação.

O show aconteceu no palco montado na represa de São José Do Rio Preto. O visual era muito bonito, com um chafariz cercado de luzes coloridas ao lado do palco. Mas apesar da beleza da noite, a atmosfera hippie estradeira da apresentação cairia perfeitamente em um fim de tarde, com o “aditivo” correto.

O repertório do show é composto principalmente pelas músicas do disco mais recente da cantora: “Caravana Sereia Bloom”. Do aclamado segundo disco, “Vagarosa”, foram incluídas apenas duas músicas: “Cangote” - com uma roupagem diferente, saindo do reggae e se aproximando do baião -  e “Grains De Beaute”, com um final empolgante.

“Malemolência” e “Rainha”, do primeiro disco, fizeram bonito no setlist, a primeira com uma citação de “Mora Na Filosofia”, de Caetano Veloso, no final. Duas covers frequentemente presentes no repertório dela também chamaram atenção, a latina “Piel Canela” de Eydie Gormey y Trio Los Panchos e, principalmente, “É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo”, de Erasmo Carlos, que arrancou muitos aplausos do público.


A beleza displicente de Céu chega ao nível máximo de sensualidade em “Chegar Em Mim”, a última do disco mais recente e uma das melhores músicas de 2012. Ao vivo, se o ritmo levemente acelerado minimiza parte do encanto, o refrão surge ainda mais pungente. No bis, ainda teve “10 Contados”, do primeiro disco e trilha de novela global.

No decorrer do show muitas pessoas abandonaram o local. Possivelmente por achar a apresentação arrastada ou não conhecer as músicas. Talvez o público heterogêneo da Virada Cultural Paulista ainda não esteja preparado para a música da Céu. Mas com uma performance coerente, corajosa e sem concessões, a cantora mirou exatamente a beira do palco, aqueles que se entregaram às nuances do show. Entre os demais, novos fãs devem ter surgido, mas os que já conheciam e gostavam saíram da represa mais do que satisfeitos...  apaixonados! 


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Lollapalooza Brasil - Minhas Impressões

Cage The Elephant


Com dois discos lançados, sendo que o segundo, “Thank You Happy Birthday” os trouxe ao mundo dos hypes, o Cage The Elephant se apresentou no primeiro dia do Lollapalooza Brasil, em São Paulo. Pontualmente (como os demais shows do primeiro dia) às 15h, a banda mostrou no palco Butantã sua sonoridade profundamente influenciada por Pixies. A banda deve mais a Frank Black do que o McLusky, para citar um exemplo (alguém lembra deles?).

O show começou com “In One Ear”, do primeiro disco. Logo no início já veio a certeza de que a marca do show seria a insanidade do vocalista, Matt Schultz, que, carismático, pulava e se contorcia a todo momento. Por vezes passava da conta. Pulava tanto que, em alguns momentos, se esquecia de cantar no microfone.

Com 12 músicas (5 do primeiro disco e 7 do segundo), o Cage The Elephant mostrou que tem um ótimo frontman e um público entusiasmado que cantou tudo. No final só ficou uma dúvida, o som baixo dos PAs prejudicou a apresentação ou falta corpo para as músicas ao vivo?


Band Of Horses


O Band Of Horses era uma das minhas grandes esperanças de bom show no Lolla. E não me decepcionou, pelo contrário, superarou as expectativas. Óbvio que o esquema deles não era aquilo ali, a riqueza de detalhes e as belas melodias da banda deveriam ser apreciadas em um lugar menor, fechado e com um público só deles. Mas ainda assim foi um belíssimo show.

As canções mais intensas ficaram ainda mais fortes ao vivo. Depois da delicada “For Annabelle”, que abriu o show, “NW. Apt” e “The First Song” prepararam o terreno para belíssimas versões de “The Great Salt Lake”, “Is There A Ghost” e “Cigarettes, Wedding Bands”.

A apresentação seguiu nessa linha. Ben Bridwell cantando muito suas belas melodias emolduradas por uma banda esperta, pesando quando era preciso e caprichando nos detalhes nos momentos mais intimistas. “The Funeral”, fechando o show com o sol quase se pondo foi um dos grandes momentos do dia.


Foo Fighters


O Foo Fighters é hoje uma das maiores bandas de rock do mundo. O “melhor” aqui envolve momento, óbvio. Headliner de grandes festivais, último disco elogiadíssimo e fama de shows incríveis. Você pode não gostar da banda, mas não há como negar o “tamanho” dos caras atualmente.

Muitos shows provocam nos fãs aquele drama de não ouvir o lado-b ou a música obscura que tanto gostam. No caso do Foo Fighters essa lógica é subvertida, é claro que há uma aqui ou outra ali que pode ter a ausência lamentada, mas em geral o que mais importa na banda de Dave Grohl são os hits. E são muitos. TODOS foram tocados.

O Lollapalooza Brasil teve o privilégio de contar com o melhor setlist da turnê sul-americana da banda. Além dos hits, teve “Hey, Johnny Park”, “Enough Space”, “For All The Cows” e, pela primeira vez, “I Love Rock’n Roll” com a Joan Jett (além de “Bad Reputation”, que já vinha sendo tocada nos últimos shows).

Dave Grohl gritou. Gritou muito. Possivelmente com a intenção de provar que o cisto que tem na garganta não é motivo para preocupação, mas na verdade é. Tudo ia bem, até que na parte mais gritada de “Monkey Wrench”, ele berrou tudo que podia, sem acompanhamento. A partir daí sua voz mostrou-se desgastada. Tudo bem, depois disso ele gritou sem maiores problemas em “Best Of You”, “Enough Space” e outras, mas quando cantava normalmente era muito fácil perceber como a voz soava “arranhada”.

A enrolação irritou um pouco. Petardos que por si só já seriam o suficiente para encantar ganhavam a todo momento jams, solos e momentos de interação com o público. É importante que um show de rock tenha isso, mas todo exagero complica. No Rock In Rio já havia sido assim, mas a banda cresceu e a enrolação, infelizmente, também. Com o arsenal de boas músicas que têm, eles não precisavam disso.

O exagero de Dave Grohl incomodou, mas um show que consegue enfileirar logo de cara pérolas como “All My Life”, “Times Like These”, “Rope”, “The Pretender”, “My Hero” e “Learn To Fly” não tem como ser ruim. A sucessão de hits não deixa tempo para respirar.

O desespero cantado em “Best Of You” ganhou contornos reais com Grohl lutando contra a própria voz, o que no final das contas foi emocionante, daqueles clichês que volta e meia aparecem e você finge que não se importa. “Hey, Johnny Park”, talvez o melhor “não hit” do Foo Fighters foi bem encaixada entre “Monkey Wrench” e “This Is a Call”. No final, “Everlong”, para muitos a melhor música da banda, fechou o show.

O Foo Fighters faz show para fãs, aqueles que estão ali prontos para o que vier e não vão criticar em hipótese alguma, o que tenta justificar, de alguma forma, a enrolação. Mas ainda assim é um grande show de rock. Dave Grohl acredita em toda aquela onda de “rock celebração” e passa isso nos discos e principalmente no show. Talvez por isso seja, como já dito, uma das maiores bandas de rock da atualidade.


Sobre o Lollapalooza Brasil

Como todo festival, o Lollapalooza Brasil teve erros e acertos. Entre os acertos é bom destacar a pontualidade rigorosa (o único atraso registrado foi o do Racionais no segundo dia) e a facilidade do acesso ao Jockey. Os problemas, em grande parte poderiam ser resolvidos se tivessem sido colocados menos ingressos a venda no dia do Foo Fighters (o único em que fui, bom lembrar). Segundo relatos, o segundo dia, com 15 mil pessoas a menos, foi bem mais agradável em relação a filas em geral, espaço e locomoção. Aguardamos uma próxima edição, com as arestas devidamente aparadas e bons shows.

As fotos foram retiradas do site oficial do Lollapalooza Brasil.

O ótimo La Cumbuca postou todos esses show inteiros, vai lá ver.