segunda-feira, 18 de julho de 2011

2011: o incrível ano em que o rock nacional sumiu


Texto originalmente publicado no Portal Iradio

Os anos 90 e 00 tiveram uma característica em comum no cenário rock mundial, ambas as décadas começaram com uma espécie de “movimento”, constituído de bandas não muito semelhantes entre si, mas que acabavam entrando, por um motivo ou por outro, no mesmo caldeirão. E com o decorrer dos anos os rótulos iam se desintegrando até que tudo se bagunçava para o início da década seguinte. 




Talvez movimento não seja a palavra, trata-se na verdade de um subgênero dentro do rock, esse foi o caso do grunge nos anos 90, com Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains, Soundgarden etc. Nos anos 00 esse agrupamento não teve um rótulo forte (forte?!) como o grunge, mas Strokes, Franz Ferdinand, Kings Of Leon, The Killers, Bloc Party entre outros eram frequentemente chamados de bandas do “Novo Rock”.

É claro que essa é uma análise simplista, pois a década de 90, por exemplo, não se resumiu às bandas grunge. O estouro do Nirvana trouxe consigo vários grupos de rock alternativo, que antes não tinham a menor visibilidade. Em meio a tudo isso teve o Radiohead, que começou sutil, mas tomou proporções enormes. E antes da fase Kid-A, arrebanhou dezenas de bandas com sonoridade similar. Isso tudo sem falar no Britpop. 

No Brasil, o tempo do rock segue de maneira mais descompassada, o grunge não pegou por aqui, o novo rock iniciado em 2001 com o Strokes também não. Ao invés disso, nesses 20 anos (90/00) tivemos, inicialmente, os medalhões do rock nacional, advindos dos anos 80, como Paralamas do Sucesso, Ira!, Ultraje a Rigor, Capital Inicial. O Mangue Beat de Chico Science e Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. que apesar da grande importância para a música, nunca obteve maiores resultados comerciais. Bandas assumidamente pop e com apelo comercial forte (Skank, Jota Quest), e aberrações comercialmente bem sucedidas como Charlie Brown Jr., Detonautas e Tihuana. Ainda tivemos Raimundos, Planet Hemp e Mamonas Assassinas. 


Com a crise do mercado fonográfico, uso da internet como plataforma efetiva de divulgação, e ainda com a relativa facilidade atual de se conseguir gravar músicas em estúdio (ou home studio) com resultados satisfatórios, as bandas independentes brasileiras conseguiram maior visibilidade e seguem produzindo o que há de melhor atualmente no rock nacional. Importante citar o Los Hermanos, que com o segundo disco, Bloco Do Eu Sozinho (2001), mostrou para muitas bandas do underground que era possível fazer o som que desejavam, cantado em português. 

No mainstream do rock (ou pop rock) brazuca, o CPM 22 “plantou” o NX Zero que originou o Restart. Depois do sucesso do emocore, com o já citado NX Zero e o Fresno, quem dá as cartas agora é o Happy Rock, ou os coloridos como Restart, Cine e Hori (que já acabou para Fiuk seguir carreira solo). A banda colorida mais bem sucedida comercialmente é o Restart, que apesar de vender bem, tem o público composto essencialmente por adolescentes e crianças, a ponto de até o consumidor médio de música no Brasil (que ouve Ivete Sangalo, Luan Santana, Vítor e Léo, Jota Quest…) ter preconceito com o som deles. Resumindo: hoje não existem bandas de pop rock nacional adultas que sejam realmente sucesso. 

Apenas para ilustrar. Aqui em Araçatuba/SP, de onde esta coluna é escrita, 490km da capital, vai chegando ao fim a Expô Araçatuba, exposição agropecuária que conta com 10 dias de shows. Obviamente duplas sertanejas predominam na programação, é compreensível. Mas como o público é diverso, a grade de shows se presta a diversidade também, sobrando espaço até para bandas de rock, ou quase isso. Em 2006 tocaram Barão Vermelho, CPM 22 e Pitty. Em 2007, Jota Quest, Capital Inicial. 2008, NX Zero. 2009, Jota Quest, Capital Inicial e, vá lá, Roupa Nova. 2010, Roupa Nova e Hori. Agora em 2011 o representante do rock’n roll é… não há. Ok, o Oficina G3 é rock, mas acaba entrando na categoria “religiosos”. É preconceito dos organizadores com o rock’n roll? Não. Eles querem público e hoje não há uma banda de rock popular a esse ponto. 

Já passamos um semestre dessa nova década e até agora não há sinais de algo interessante no rock nacional mainstream e nem de bandas independentes conseguindo maior visibilidade. Pelo contrário, o Superguidis, banda independente gaúcha da melhor qualidade, anunciou seu fim recentemente. Ou seja, bandas que deveriam estar tocando nas rádios e fazendo a cabeça da juventude estão terminando. 

O que resta é continuar acompanhando o bom trabalho de várias bandas do underground, apoiar e torcer para que isso, no Brasil, não seja o triste fim desse negócio chamado rock’n roll.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Superguidis 2002 - 2011


texto originalmente publicado no Scream & Yell


“A @Superguidis informa que encerra suas atividades, por interesses pessoais que conflitavam com os da banda.” Foi com esse tweet, do dia 23 de junho de 2011, que a Superguidis, uma das melhores bandas de sua geração, anunciou o fim dos trabalhos.

Em 2006, a revista Bizz, em uma de suas voltas, dessa vez sob o comando de Ricardo Alexandre, publicou uma espécie de guia intitulado: “13 Nomes Que Realmente Importam No Novo Rock”. Eram 10 internacionais e 3 brasileiros. Dos gringos, o único que realmente vingou e se tornou “grande” foi o Arctic Monkeys. Alguns tiveram seus momentos e continuam na ativa, como Wolfmother, Guillemots, We Are Scientists, Clap Your Hands Say Yeah e Hard-Fi, outros não tiveram muita visibilidade nem na época, como Hal, Los Alamos e Stephen McBean, por exemplo.

Entre os brasileiros, o Moptop foi bastante incensado naquele contexto, mas teve uma incursão não muito bem sucedida no mundo das grandes gravadoras. Com dois discos gravados, continua em atividade. O Supercordas manteve-se no underground e sustenta ainda um grande número de admiradores enquanto prepara um aguardado segundo disco. O último nome era de um tal de Superguidis, grupo gaúcho de Guaíba/Porto Alegre.

O texto da Bizz recomendava as músicas “Malevolosidade” e “Discos Arranhandos”. Na descrição dizia que o grupo era como uma mistura de Foo Fighters, Guided By Voices e Los Hermanos. Ouvindo “Malevolosidade” e pensando em um misto do lado mais power pop dos barbudos (“Cara Estranho”, por exemplo) com alguma guitarreira grudenta de Dave Grohl, até fazia sentido. Bastava, no entanto, ouvir o disco de estreia inteiro para ver que a língua falada ali tendia muito mais para o Guided By Voices.

Guitarras hora furiosas, hora dissonantes contornavam letras de temática adolescente cantadas com tanto potencial melódico que, ainda hoje, são difíceis de esquecer. Andrio Maquenzi (voz e guitarra), Lucas Pocamacha (guitarra), Diogo Macueidi (baixo) e Marco Pecker (bateria) traziam para língua portuguesa, sem perdas no percurso, um universo dos anos 90 povoado por Pavement, o já citado Guided By Voices, Yo La Tengo e outras bandas.

As letras do primeiro disco, auto-intitulado, são curtas e tratam de assuntos cotidianos de forma despojada, beirando o cafona: “olha o que eu trouxe pra enfeitar / maravilhosamente o seu lar/ paguei baratinho no mercado / e to pensando em colocar no quarto ao lado”, cantam em “Spiral Arco-Iris”.

No segundo álbum, “A Amarga Sinfonia do Superstar”, as guitarras aparecem mais encorpadas e a voz de Andrio potente como nunca. As letras ganham um tom levemente mais sério, o que desagradou uma parte da crítica. Disseram que a banda perdeu o frescor do debute e “amadureceu” demais. Embora o disco tenha realmente uma atmosfera mais melancólica, não é difícil encontrar lampejos do despojamento de antes nas letras: “Pra não estressar/ não esbranquecer os cabelos / e depender a vida toda de Wellaton”, dia a letra de “Apenas Leia”.

A música “Os Erros Que Ainda Irei Cometer” traz um verso que simboliza bem a forma como o grupo foi, de fato, amadurecendo, mas sem perder a aura jovial do início: “Pelos becos amontoados de silêncio / penso nos dias que ainda tenho pra viver / bicicletas aro 15, tênis com cheiro de chiclete / são o bastante pra me lembrar desses anos que voam sem parar”. Coincidentemente, ou não, várias músicas do disco resvalam na temática do passar do tempo, da nostalgia. A festeira “Riffs”, resgatada do início da carreira, surge como faixa escondida e funciona como um “não se desespere, ainda somos os mesmos”.


No terceiro álbum, novamente homônimo (mas conhecido por “3”), lançado em 2010, o início com a balada acústica “Roger Waters” choca. Mas por pouco tempo. Após 2 minutos e 11 segundos “Não Fosse O Bom Humor” traz possivelmente as guitarras mais altas da carreira dos gaúchos. O contraste das duas primeiras músicas dita a tônica do disco: guitarras altas e um mergulho ainda mais profundo na melancolia iniciada no trabalho anterior. O que aponta “A Amarga Sinfonia Do Superstar” como um disco de transição. Em 2010 a banda se mostra equilibrada, segura de si e, por que não, madura.

“Visão Além Do Alcance”, “Roger Waters” e “Aos Meus Amigos” trazem violinos. “As Camisetas” começa com ritmo truncado e cai no refrão que evoca comédias românticas pop: “Por que será que sempre chove toda vez que alguém te abandona?”. “Quando Se É Vidraça” e “Fã-Clube Adolescente” são mais rápidas e agitadas, ou como os próprios guidis definem: são “pau dentro”. “De Mudança”, do meio em diante, é Alice In Chains puro. “Casablanca” retoma o vigor enquanto “Nova Completa” traz altas doses de melancolia, mas nada comparado a “O Usual” com seu refrão corta-pulso: “De repente o medo de morrer sozinho me incomoda mais que o usual”.

A última música do disco, “Aos Meus Amigos”, não só resume o álbum, mas traz elementos presentes por toda a carreira da banda. Versos que remetem ao primeiro trabalho: “E a simplicidade de quem tem / um par de tênis furado”; a melancolia introduzida em “A Amarga Sinfonia do Superstar”; e a fusão entre guitarras e arranjos de cordas do terceiro. Tudo isso sem contar o belo refrão, outra marca do grupo. Uma maneira bonita, mesmo que inconsciente, de encerrar as atividades.

A Superguidis conseguiu captar como poucos o espírito adolescente em três discos. Para alguns, refletiram uma aura já não existente, saudosista. Mas é preferível pensar que eles traduziram o sentimento que poderia ser vigente na juventude atual. Um último EP, “EPílogo”, foi colocado para download gratuito na Trama Virtual com versões demo e ao vivo de faixas que iriam compor um novo lançamento do grupo, mas que ficaram pelo caminho atropelados pela incerteza do cenário independente.

Em entrevista à revista Rolling Stone, Andrio Maquenzi disse que a decisão pelo fim da banda foi tomada sem atritos. “Foi tudo muito tranqüilo. Somos, acima de tudo, brothers, amigos de longa data. O que aconteceu foi que cada um tem outros projetos pessoais e profissionais que estavam conflitando com os da banda”. Disse ainda que irá continuar com projetos musicais de antes como o Medialunas (com Liege Milk, do Loomer e Hangovers) e o Worldengine.

Andrio Maquenzi, Lucas Pocamacha, Diogo Macueidi e Marco Pecker deixam como legado os três ótimos discos, lançados entre 2006 e 2010, e a insatisfação em saber que bandas tão legais nascem e morrem no underground, tornando-se marcantes para alguns, mas desconhecida para tantos outros. É preciso repensar um cenário que não consegue comportar bandas como a Superguidis e tantas outras com enorme potencial para conquistar um grande público, mas que saem de cena sem o merecido sucesso. Se uma banda é reconhecidamente boa, lança grandes discos e faz ótimos shows, por que ela não consegue sobreviver fazendo música no Brasil? A culpa é do artista ou do cenário? Vale pensar nisso. E ouvir as músicas novas da Superguidis. Eles ainda tinham muita lenha pra queimar…

terça-feira, 17 de maio de 2011

Virada Cultural 2011 em Araçatuba, minhas impressões

She’s Lost Control, Canastra e Zeca Baleiro


Minha saga começou com o espetáculo de dança She’s Lost Control, da Cia. Vitrola Quântica. Conforme citei na postagem anterior, meu interesse na apresentação foi a inspiração em Joy Division, já que não tenho grandes afinidades com a dança (em vários sentidos), mas devo dizer que saí do teatro bastante impressionado.


O espetáculo começa com as três atrizes/dançarinas/bailarinas formando uma banda, mesmo, no palco. Baixo, guitarra e bateria fazem cerca de 5 minutos de pós-punk, e só então os movimentos epiléticos começam.

A atmosfera é tensa do início ao fim, com as três (bem bonitas, por sinal) se cruzando em manobras perigosas e descontroladamente perfeitas. Na trilha não toca efetivamente a música título, mas algumas citações assombrosas surgem inesperadamente.

No momento mais tenso, o som se assemelha a algum daqueles pesadelos em que corremos de algo indefinido, mas as pernas não obedecem e não nos tiram do lugar. Uma das garotas começa bater violentamente uma espécie de taco de hockey no chão e em determinado momento as três reiniciam os movimentos descontrolados, mas dessa vez arremessando o bastão uma para a outra. Qualquer erro, que felizmente não aconteceu, traria grandes problemas.

Pelo que pude observar não houve nenhuma baixa no público durante a apresentação. A hipnose coletiva foi bem sucedida. Saí do local bastante perturbado e imaginando como King Night, do Salem, se encaixaria muito bem na trilha atormentada, do espetáculo e da minha cabeça naquele momento.


Quando cheguei na praça Getúlio Vargas, o show do Swing Snake Blues já havia começado. O que posso dizer é que o clima era bom e a banda estava afiada. Um amigo disse que exageraram um pouco nas jam sessions, concordei, ao menos nas poucas músicas que pude acompanhar.


Sem atrasos o Canastra começou sua zorra em cima do palco. Logo de cara já mandaram “Chega de Falsas Promessas”, “Chevete Vermelho” e “Motivo de Chacota”. Nesse momento o público se dividiu. Metade estava ganho. A outra metade reclamava da voz anasalada de Renato Martins, mas ainda assim dançava.

O som saía muito bem definido das caixas e os metais deram um show a parte. Foi divertido, mas fico imaginando como seria insano um show deles em um ambiente fechado e para um público mais específico, no Pub Rock Beer por exemplo. Fica a dica.


Eis que se inicia o show mais esperado da noite, e talvez de toda a Virada: Zeca Baleiro. Devo confessar que a partir daí minhas impressões são um pouco nebulosas, resultado de uma mistura inusitada de (muita) cerveja, licor Amaretto (culpa do Douglas) e de um estômago tão vazio que quase corria uma bola de feno.

Zeca preferiu não arriscar e apostou em um repertório recheado de hits de sua carreira, o que já era previsível e aceitável em vista do público diversificado de uma Virada Cultural.

Estava tudo lá: “Telegrama”, “Lenha”, “Proibida Pra Mim” (urrrgh), “Babylon”, “Bandeira”, “Heavy Metal do Senhor” e tantas outras. O problema foi que, não faço idéia do motivo, o som, que soava tão cristalino no Canastra, estava um pouco embolado. Quando ficava no violão e voz, melhorava. Mas quando entrava a banda toda, tudo se misturava. Deixo claro que pessoas sóbrias concordaram comigo nesse aspecto.

De toda forma, o público pareceu bastante satisfeito. Como postei anteriormente, não sou grande entusiasta do Zeca Baleiro. Apostava no show, mas devido às circunstâncias, me mantenho da forma que estava antes da Virada, ainda no benefício da dúvida.

O Anderson fez um vídeo caprichado do show, um resumão de 30 minutos, confira abaixo. No blog dele também tem vídeos do Canastra e da Fafá de Belém.






Tulipa Ruiz


No domingo me programei apenas para a apresentação da Tulipa Ruiz. O show que mais esperei na virada. E minhas expectativas, que eram bem altas, foram superadas com louvor.

O público, como já esperava, não foi muito numeroso. Houve atraso de uns 25 minutos, mas sem grandes irritações, o clima era bem pacífico, parecendo até que introduzia a primeira música do show, a suave “Efêmera”. Após a banda toda entrar no palco e começar os primeiros acordes da música, Tulipa entrou e foi logo saudar o público.

Quando começou a cantar, o arrepio foi inevitável. Sua voz preenchia o silêncio do imponente teatro com uma delicadeza hipnótica. A banda, competentíssima, fazia sua parte, mas o público parecia não conseguir desgrudar os olhos da simpática vocalista.

A performance de Tulipa encanta por uma série de fatores. O primeiro, óbvio, a voz. Hora suave, hora firme e poderosa. Em alguns momentos romântica, em outros totalmente destrambelhada. O lado teatral da cantora é aplicado na medida, chama atenção, mas não soa forçado. E, por fim, a simpatia. O sorriso que parece não conseguir sair do rosto. Teve jogo de cintura para contar histórias enquanto trocavam seu microfone, no início do show, e para convidar todos a levantarem das cadeiras quando cantou “Brocal Dourado”.

“Pontual” mostrou a faceta mais pop do show, enquanto “Pedrinho” ganhou peso (vídeo abaixo). “Do Amor” foi um dos grandes momentos, bonita de chorar. A voz, na parte final, em que faz vocalizações em falsete, conduziu um final irretocável. A única música de Efêmera, seu primeiro e único disco, que não foi tocada foi “Sushi”. E ainda tiveram versões destruidoras de “Cada Voz” e a cover de Caetano Veloso, “Da Maior Importância”. O final, com “A Ordem Das Árvores”, foi o culpado por todos saírem do teatro cantarolando “Uhuu-Uhuu”.

Uma pena que o teatro não estivesse lotado, longe disso. Tulipa Ruiz faz o tipo de som que faria muito sucesso, se o mundo fosse justo. Mas a carreira da moça está apenas começando, espero ainda vê-la aqui mesmo, em Araçatuba, em um show lotado e com a carreira ainda mais bem-sucedida. De toda forma, independente de público, enfim, “acontece alguma coisa nessa tarde domingo”.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Virada Cultural 2011 em Araçatuba. Minha programação

Nesse final de semana, 14 e 15 de maio, acontece a Virada Cultural Paulista 2011. Pra quem não sabe, a virada é... ah, você sabe, né?! Pois bem, todo ano traço meu roteiro do que vou (ao menos tentar) acompanhar aqui em Araçatuba. Segue abaixo a lista.



She's Lost Control – Cia. Vitrola Quântica

Horário: 20h30
Local: Teatro Municipal Paulo Alcides Jorge




“Inspirado na canção homônima da banda inglesa de pós-punk Joy Division, o espetáculo une elementos da literatura, psicanálise, música e artes plásticas para criar uma experiência diferente nos limites entre o controle e o descontrole, um jogo de tensões de corpos que se organizam e desorganizam, numa festa que nunca termina.”

Nunca gostei muito de espetáculos que envolvam dança, mas quando o tema em questão é a clássica She’s Lost Control, do Joy Division, a coisa muda um pouco de figura. Há grandes chances de não gostar, mas vale a tentativa.








Swing Snake Blues

Horário: 21h
Local: Praça Getúlio Vargas



“Original de Araçatuba, a banda de blues e southern rock incorpora em seu repertório composições de Eric Clapton, B.B.King, The Allman Brothers e outros grandes nomes. Com Lucas "Tchê" Gagliardi na voz, Fernando Antones e Iran Marcius nas guitarras, Raphael Martini no baixo e Leandro Jordison na bateria, a Swing Snake Blues revisita os clássicos desses estilos somando sua energia e tempero.”

Banda local que ainda não consegui pegar nenhum show. Tenho ouvido muitos elogios a respeito dos caras. Tudo bem que em um evento como esse o que eu queria mesmo ver é repertório autoral (não tenho certeza se o SWB tem ou toca sons próprios em shows), mas o som deles parece bom. Se bem que só verei na íntegra se realmente o She’s Lost Control não bater, do contrário pego na metade. Veremos.



Canastra

Horário: 22h30
Local: Praça Getúlio Vargas


“O grupo carioca apresenta ao vivo o repertório do CD "Chega de Falsas Promessas", que traz uma sonoridade tão diversa e inusitada que é capaz de agradar a todas as tribos, ou mesmo a quem não pertence a nenhuma delas. Canções que, de um jeito ou de outro (seja por forma ou conteúdo), têm tudo a ver com todo mundo. Porque, no fundo, todo mundo gosta mesmo é de boa música.”

Apesar dessa descrição babaca acima, o Canastra é uma banda bem bacana. Rodrigo Barba, (ex?) baterista do Los Hermanos comanda as baquetas do grupo. O som tem a ver com o Acabou La Tequila, antiga banda do vocalista e um dos nomes da maior influência no primeiro disco do próprio Los Hermanos, lembrando que Anna Júlia e Primavera eram exceções no álbum. Baseado nas músicas dos dois disco do Canastra “Traz a pessoa Amanda em 3 dias” (2004) e “Chega de falsas promessas” (2007), o show promete ser no mínimo divertido. E como o trabalho mais recente já tem 4 anos, fica a expectativa para que rolem músicas novas no show.






Zeca Baleiro

Horário: 0h
Local: Praça Getúlio Vargas


“O artista faz uma retrospectiva de sua carreira, em um show que reúne sucessos em versões contagiantes. O repertório traz criativas releituras de canções já consagradas como: Salão de Beleza, Telegrama, Você Não Liga Pra Mim, entre outras. Acompanhado de Tuco Marcondes (guitarras, violões e vocais), Fernando Nunes (baixo), Pedro Cunha (teclados e acordeom) e Kuki Stolarski (bateria e percussão).”

Provavelmente é a atração mais aguardada da Virada (ele e a Fafá de Belém). Confesso que não sou grande entusiasta do Zeca Baleiro, lembro de uma ou outra música que acho realmente boa, mas já ouvi falar muito bem de shows dele.








Obs1: 0h30, no teatro da UNIP, tem show de um cover do Queen chamado Bohemian Queen, mas vai ficar pra próxima.

Obs2: 2h30 tem um stand-up comedy do Renato Tortorelli no teatro da UNIP. Vi algumas coisas dele no youtube e achei absolutamente sem graça. Então, só vou se for embalado no fluxo.


Tulipa Ruiz

Horário: 15h
Local: Teatro da UNIP


“Sucesso de público e crítica, o disco de estreia de Tulipa foi considerado um dos melhores do ano pela revista Rolling Stone e um dos melhores da década pela Folha de S. Paulo. O repertório do show é formado pelas canções da cantora e a banda que a acompanha traz importantes instrumentistas da MPB, como Duani Martins, Marcio Arantes, Gustavo Ruiz e Luiz Chagas.”

Conforme postei aqui, Tulipa Ruiz é a responsável pelo melhor disco nacional de 2010, “Efêmera”, o show dela é a atração que aguardo mais ansiosamente na Virada. Pude vê-la de perto no Planeta Terra Festival, ano passado, mas o show não era dela, era do coletivo Novos Paulistas, do qual ela faz parte e protagonizou os melhores momentos da apresentação. Fico um pouco receoso de shows em um teatro grande como o da UNIP, o público tende a ficar mais retraído, o que, de certa forma, contribui com um caráter mais contemplativo, mas coloca em risco momentos mais “pra cima” do repertório. A pouca projeção comercial (especialmente no interior) de Tulipa e o horário do show podem fazer com o público não seja muito numeroso, o que seria uma pena enorme. A única coisa que digo é que, quem perder esse show vai deixar de ver em plena ascensão um dos talentos mais promissores da música brasileira atual, e isso não é pouco.









Obs3: Até faria um esforço para ver o show da Fafá de Belém, 17h na praça, mas tenho um compromisso com a TV: jogo do timão. #VaiCorinthians.

Obs4: Na próxima semana posto aqui minhas impressões gerais sobre a virada.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Wasting Light - Foo Fighters



Dave Grohl é constantemente classificado como um dos gênios de sua geração. E não é para menos. Têm no currículo as baquetas do Nirvana, e esteve em ótimos projetos, como Them Crooked Vultures, Probot, tocou (e muito) no melhor disco do Queens Of The Stone Age, entre outros.

Mas a verdade é que, no Foo Fighters, sua principal ocupação, estava devendo um bom disco desde o One By One (2002). In Your Honor (2005) apesar de ter a incrível “Best Of You”, é um disco confuso e bastante irregular. E Echoes, Silence, Patience And Grace (2007) é sem dúvida o ponto mais baixo da discografia do grupo.

No entanto, enfim, Grohl arregaçou as mangas, cercou-se de referências certeiras e nos deu um belo disco, Wasting Light. No album, a banda usa sua melhor arma, canções com peso e vigor, mas totalmente palatáveis e com refrões descaradamente pop e assobiáveis.

É nítida a influência de trabalhos anteriores de Grohl, como QOTSA, Them Crooked Vultures e do próprio Nirvana. O revival grunge é acentuado pela produção de Butch Vig, responsável pelo lendário Nevermind, participação de Krist Novoselic em uma faixa (“I Should Have Known”) e a volta de Pat Smear à banda. Sim, agora são três guitarras.

Não há nada de realmente novo no disco, o que hoje em dia pode ser um problema. Por outro lado, a banda se alinha (mesmo que inconsciente) a uma espécie de retomada do grunge, que compreende a volta de nomes como Alice In Chains, Soundgarden e Stone Temple Pilots, e ainda uma nova geração que bebe nessa mesma fonte (Cage The Elephant, Yuck, Dinosaur Pile-Up).

Wasting Light já é o sétimo disco de inéditas do Foo Fighters, ou seja, a banda não é mais nenhuma promessa. Com isso, se continuar lançando discos como esse, mesmo que sem “olhar pra frente”, ninguém deve reclamar, vide ACDC, Motorhead e outros... a música continua.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Angles - Strokes



Garanto que ninguém queria estar na pele do Strokes para lançar Angles. Só o fato de uma banda ser boa já traz cobranças em cada lançamento. Agora, junte isso ao fato da sonoridade do grupo em questão ser considerada um dos pilares musicais de uma década, e ainda o último disco ter sido lançado em 2006, há 5 anos, o que para o mundo pop é praticamente uma era.

O Strokes é relativamente grande, mas não é nenhum Guns'n Roses, que tem uma legião de fãs incondicionais capazes de aguardar, com ansiedade, um disco por mais de uma década. Claro que muitos “fiéis” andaram se rebelando contra o Chinese Democracy, mas ainda assim a base de fanáticos é sólida.

Em tempos que a busca incessante por um “novo Nirvana” (aquela mesma que se iniciou logo após a morte de Kurt Cobain) é cada vez mais intensa, um novo trabalho do Strokes, exatamente 10 anos após o debut da banda, aliado ao pressuposto de que início de década é tempo da sonoridade vigente nos próximos anos se desenhar, ganha ares ainda mais míticos.

É importante deixar claro que, nem por tudo isso, a banda foi “vítima de uma armadilha do destino”. Eles contribuíram também para toda essa expectativa, com músicas vazadas feito conta gotas, capa de disco falsa, contagem regressiva e outras artimanhas do marketing digital.

Machu Picchu abre o disco de um jeito interessante. Inicialmente não se parece com Strokes, mas sensíveis influências do disco solo de Julian Casablanca são perceptíveis. O refrão tem guitarras marcantes, remetendo ao som mais habitual do grupo. Na parte final Julian experimenta timbres vocais diferentes, dando a impressão que a banda está decidida a trilhar novos caminhos.

Primeira música do disco a ser lançada oficialmente, Under Cover Of Darkness é, sem dúvida, a melhor do álbum. Ritmo crescente, refrão contagiante e ótimas guitarras. É uma música bastante eficiente, embora não traga grandes novidades ao som da banda, contrariando o que a primeira do disco acenava.

Two Kinds Of Happiness começa contida e explode em um bom refrão que culmina em solo frenético de guitarra. Faz um bom par com a música anterior. Julian segue experimentando nos vocais em alguns momentos.

You’re So Right é esquisitona com seus efeitos e batidas repetitivas, mas o resultado é interessante. Soa como uma música da (tenebrosa) segunda metade de First Impressions Of Earth que deu certo.

Taken For A Fool começa arrastada, mas no refrão lembra bons momentos do Is This It. Mantém um nível razoável no disco até aqui, apesar das poucas novidades.

No início de Games é quase inevitável conferir se você está ouvindo mesmo Strokes ou se sem querer algo do Alphaville ou similares oitentistas foi parar em sua playlist. A música se encaixaria perfeitamente no disco solo de Julian. Ou seja, é monótona e arrastada. Quebra a boa sequência que vinha se desenhando.

Call Me Back é mais uma música arrastada. O ritmo é quase uma bossa nova, daquelas bem quadradas, que faz gringo achar que tem toda a malemolência do mundo. E não sai disso. É a hora do show em que Fabrizio Morett pode ir tomar uma cerveja, a música não tem bateria.

Gratisfaction já começa chutando o tédio das duas faixas anteriores. É possível notar alguns ecos de Little Joy, mas com guitarras mais vigorosas e um refrão em coro. Traz novas esperanças para o disco.

Metabolism tem sinais de cansaço. O refrão com sílabas esticadas aos poucos martela no ouvido feito um tormento. Parece que a música não vai chegar nunca ao fim (são apenas 3 minutos).

Life Is Simple In The Moonlight, no início, parece que vai fechar o disco na linha preguiçosa da faixa anterior, mas um bom refrão salva a música.

Angles nada mais é do que um disco de regular para fraco, ou seja, é o típico Strokes pós “Is This It”, na descendente. Com algumas experimentações, o que é louvável, mas que parecem não ter tido tempo para serem melhor inseridas no contexto do disco (tempo? Sério? pois é, certamente a pressão pelo lançamento aumentou nos últimos meses. A situação já beirava o ridículo). 

A rejeição do album foi grande, mas alguns ainda dizem: “o disco até que é bom, mas nada que justifique tanta espera”. Mas convenhamos, nas atuais circunstâncias, de alguma forma justificaria?

O Rock 'n' Beats publicou ontem que a banda já está voltando ao estúdio para trabalhar em novas ideias. O que resta são os questionamentos sobre os próximos passos – devem arriscar novos experimentos? voltar às origens? - e sobre a longevidade do Strokes: poderão dar um reviravolta na carreira ou o cinismo indie cresceu a galope nos últimos anos não permitindo isso? ou ainda, no caso, é possível a fria constatação de que o momento da banda já passou, não importa o que façam, irão carregar a pecha de ser fruto do longínquo 2001. Só o tempo dirá...

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Uma pré-resenha precipitada de The King Of Limbs - Radiohead



Nem vou perder tempo falando sobre a forma como o disco foi lançado na internet e tudo o mais, vamos para a música.

Tudo que escrevo aqui nesse post é baseado em poucas audições do disco, ou seja, pode ser que tudo mude amanhã, ou depois, ou daqui um mês, um ano.

O disco começa com Bloom, faixa com base inquieta e vários sons sobrepostos. Logo de cara, a música remete a Kid A e Amnesiac, até há uma semelhança, na forma, com "Packt Like Sardines in a Crushed Tin Box". A diferença, no entanto, é que, ao invés da voz de Thom Yorke funcionar como mais um instrumento, como ele mesmo disse na época do lançamento de Kid A, aqui ela se sobressai límpida, coroando o instrumental intrincado, como no disco solo de Thom, The Eraser.

Depois dos 5'15" da primeira faixa (com exceção de Feral, todas passam dos 4 minutos) vem Morning Mr Magpie com uma guitarra marcante, mas não pense em peso, distorção, a linha continua seguindo em uma direção complexa. É uma das músicas que deve funcionar bem ao vivo. Espere mais dancinhas de frango destroncado.

Little By Little segue o caminho das faixas anteriores, talvez um pouco mais "pra cima", dentro dos moldes Radiohead, claro. E a identificação com The Eraser continua. As guitarras, em certos momentos lembram Go To Sleep também. Feral é instrumental, ou quase. Yorke balbucia sons desconexos. A música é toda torta, lembrando The Gloaming, especialmente a linha de baixo, e ainda é par de sons instrumentais do Amnesiac.

Lotus Flower é o single, começa como mais uma canção quebrada do Radiohead, mas quando a voz entra, a melodia já joga o caráter de single na nossa cara (mais uma vez, nos moldes Radiohead). O refrão em falsete começa apontar o album para outras direções.

Como disse, os caminhos vão entortando, ou no caso, endireitando. Codex é uma bela balada levada por um piano com timbres espaciais. A melodia da primeira estrofe derruba toda a tensão das faixas anteriores. Timbres novos vão aparecendo e preenchendo a música até que somem e fica o piano pontuando a voz de Yorke. Tudo muito bonito.

Give Up the Ghost é levada por um violão (sim, eu escrevi violão) e a voz atormentada de Thom Yorke, imersa em efeitos, repetindo "Don't Hurt Me" por toda a música, é o que pontua a faixa. No final a sobreposição da voz em diversas camadas é arrepiante.

A faixa mais longa, Separator (5'20"), fecha o disco. A música é a mais "sóbria" do album, sem maiores complexidades, tensão ou melancolia profunda. Aos poucos vão surgindo coros e guitarras dedilhadas, tudo bastante perceptível. Alguns diriam que é uma das poucas "normais" do disco. No minuto final o som vai ficando nebuloso, mas pouco depois a música, e o disco, terminam.

As músicas que fecham os discos do Radiohead sempre carregam algo a se analisar. Diferem de todo o resto (Blow Out, A Wolf At The Door), ou soam misteriosas (The Tourist, Motion Picture Soundtrack, Life In A Glasshouse), ou coroam o disco feito um single  (Street Spirit e Videotape). Separator pode se encaixar nas três categorias: é diferente das anteriores, traz um certo mistério, especialmente no final, e poderia perfeitamente ser um single.

O disco parece separado em lado A e lado B, onde as quatro primeiras são quebradas e tortas. Feral, instrumental, enfia o pé na esquisitice e divide o disco. E as quatro últimas trazem belas melodias e trocam a tensão por melancolia. O "lado A" é um pouco mais uniforme, o "B" aponta para mais direções, mas também tem uma unidade. 

The Kings Of Limbs, em geral, mostra o Radiohead mais uma vez enigmático e nos enganando durante a audição. No início, ligamos o disco à fase Kid A/Amnesiac, logo depois vemos que está mais para The Eraser, então surgem ecos do Hail To The Thief, Ok Computer... Até que nosso estoque de associações se esgota e vemos que o Radiohead trouxe, em meio a várias auto-referências, novos caminhos para o próprio som, que talvez demore um pouco para ficarem mais claros.